Vote na vacina

Em outubro de 1996, a cidade sofreu a recaída de uma doença que começou a se agravar dois meses depois, decorrente da falta de cuidado com a saúde, com o corpo, com a alimentação, com o amor próprio, com a higiene — até com a aparência. Campinas piora. Está ficando feia. Cá pra nós, já não vinha bem. Quando perguntam “como tem passado”, ela responde: “Do jeito que tenho passado, não sei se terei futuro“.

Dia desses, dona Márcia da Silva la Fortezza ligou indignada e me fez um alerta: “Quando chegar até você o Correio do dia 11, o choque será grande; cuidado ao abrir o jornal!” Essa campineira de Americana, casada com um campineiro italiano nascido no Egito, o seo Duílio, se referia a uma crônica recente, “S.O.S.”, que resumia em notícias de dez dias a tragédia chamada Campinas, digo, Titanic.

De fato. O Correio do dia 11 me chegou ontem. Não é um jornal, é um alarme. Dona Márcia tem razão: “Os descalabros que aconteceram durante dez dias, agora, acontecem num dia só!” Terminada a leitura, concluí: em Campinas ninguém mais tem medo de morrer; os campineiros devem estar com medo é de viver. Comunidade acuada.

Os acontecimentos levam qualquer um ao desespero. Dá vontade de berrar. Começam com a história de um bando de saqueadores do bem público: “Acima da lei, no país da impunidade”. Campinas também é “refém da saga dos sem-teto”. As autoridades encarregadas de livrar os cidadãos desse ataque de manipulados assistem, acovardadas, ao desfile de desrespeito às leis que não fazem cumprir. Cúmplices? De quem? A soldo de quem? Do povo, que lhes paga o salário, não. Se já debocham da polícia, e ela não age nem reage, vamos chamar o ladrão.

Voltando à Idade da Pedra, como em Cuba, os campineiros vivem de tocha na mão, vítimas de “apagões”, para usar a mesma expressão das vítimas daquela ilha. Crianças andam seis quilômetros para chegar à escola; desempregado dá trote na PM e a PM agride menores; a Guarda Municipal é arbitrária; a estação do VLT, como de resto toda a cidade, continua abandonada. Chega!!!

Para culminar, os centros de saúde estão sem remédios. E os funcionários municipais, que cumprem o sagrado dever de informar a população dessa negligência, são ameaçados de punição. Enquanto isso, um casal que paga impostos para sustentar os responsáveis pelo escárnio, procura um centro de saúde para ver se a filha está com dengue e não é atendido. Quando a denúncia chega à imprensa, no centro de saúde vêm com a desculpa de que houve um “mal-entendido”. Mentira! Não foram atendidos e pronto. Mas, infelizmente, todos continuam soltos, porque a polícia já é caso de polícia.

Seo Pagano, se na campanha, o senhor tivesse prometido todo esse ‘descaso’ com o povo e confessado seu ‘caso’ com Maluf, teriam apedrejado o palanque. Será que na “Alemanha de Hitler” o povo foi tão maltratado como os campineiros da “Campinas de Chico”? O senhor consegue a façanha de ser pior do que o Jacó Bittar. Comparo com dor na alma, porque o Chico que conheci era outro.

Centros de saúde sem remédio, seo Pagano? Vamos torcer para que o Butantã consiga uma vacina que imunize os campineiros contra o deboche de suas autoridades. Tome uma dose no dia 4 de outubro, antes de votar, porque não há alternativa: são todos contagiosos.

 

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