Achado é roubado

Está no Código Civil. Artigo n.º 603. Se você encontrar algum objeto ou valor em dinheiro, deve ser entregue a alguma autoridade constituída. Esse objeto não lhe pertence. Mas também está no mesmo Código que o dono do objeto que você encontrou tem de premiá-lo, como recompensa pela devolução, e indenizá-lo pelas despesas que você teve pela guarda e transporte do objeto ou valor que você achou. Sabia ? Nem eu. Portanto, esse dito popular é obra de algum cumpridor da “Lei de Gerson” e induz a um crime.

Você já achou alguma coisa por aí, que valesse a pena ficar com ela, levar para casa ou gastá-la? O que você fez com essa coisa, afinal ? Uma vez, bem na frente do tristemente extinto “Ponto Chic”, debaixo dos caracóis da cabeleira do Carlos Gomes, filho de Maneco Músico, encontrei dobrado sobre a sarjeta um maço de dinheiro, já molhado pela água que escorria junto ao meio-fio. Era noite e a chuva acabara de passar por Campinas. Catei. Para meu espanto, Zezé de 32 exclamou: “Achou, nada! Esse dinheiro é meu, acabou de cair da minha bolsa; é o troco do lanche que o homem me deu!” Esperta, ela só estava despistando.

Já perto do bar “Copacabana”, entrando na Benjamim Constant, ali na frente da boate “El Cairo”, confessou: “Não viu que havia um homem de olho em você? E se ele inventa de dizer que aquele dinheiro que você achou é dele? Quando se acha dinheiro na rua, não pode ficar alardeando. Guarda no bolso e sai de fininho…” Como o dinheiro não valia nada, deve ter sido uma mixaria o que eu achei: 17 cruzeiros velhos (duas notas com o almirante Tamandaré, uma do barão do Rio Branco e outra com aquele assassino).

Acho que já era tarde da noite, porque o Cataldo Bove entrava na boate para passear os dedos naquele piano… Bom Cataldo, misto de jornalista e pianista, revisava textos do antigo e também tristemente extinto Jornal de Campinas, sentado no banquinho do piano. Tempos do tal “jornalismo romântico”.

E ponha romântico nisso. O encarregado de escrever o horóscopo fazia tudo para que o signo da garota que ele cobiçava saísse com um texto que a aproximasse dele: “Hoje, você conhecerá um novo amor; não desperdice essa oportunidade…” E lá ia ele atrás da menina, para um “encontro casual”.

Um dia eu conto quem foi. Bons tempos, Beto Godoy; bons tempos… Não foi ele, não ! Nem eu.

A história virou dias depois. Brincava no parque infantil do glorioso e também tristemente extinto “Grupo Escolar Municipal Corrêa de Melo”, ali perto do Mercadão. No bebedouro, achei cinco cruzeiros, o nosso velho “cincão”. Levei para casa: “Vou comprar tudo em bolinhas de gude”, exultei. “Vai nada! Esse dinheiro não é seu. Amanhã, você devolve para a professora e ela descobre quem perdeu.” Meu pai acabava ali com meu sonho de ganhar 25 bolinhas. E não é que a querida dona Dirce Nascimento encontrou a menina que perdera o “cincão”? E agora? O que seguir? O silêncio da Zezé ou a advertência solene do pai? Só sei que nunca mais achei nada na rua que prestasse. A não ser um título de eleitor, velho, fotografia descorada, todo preenchido. Era no tempo da ditadura e, naquele tempo, título de eleitor não servia para nada. E hoje, serve?

 

 

 

Moacyr Castro

Campo Grande, 13 de Março de 1997

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