Ao pé da letra

DESERTO – Despovoado, desabitado; sem gente: sítio deserto. Pouco freqüentado. Lugar ou região despovoada e árida. O Saara é um deserto. “Pregar no deserto: não ser atendido ou ouvido”. Os pregadores do deserto. Os desertos são essencialmente regiões deprimidas e, por conseqüência, inacessíveis aos ventos chuvosos do mar e submetidos a uma estiagem continuada; daí provém uma ausência de vegetação quase total. Um clima sujeito a bruscas variações de temperaturas e uma inabitabilidade quase absoluta. Lugar solitário, ermo”.

Assim está no Lello Universal e num Aurélio de meio século atrás. Assim caminha Campinas, rapidamente, para se enquadrar numa dessas definições. Se essa gente continuar alheia à cidade que pensa administrar (afinal, um traficante manda mais do que qualquer administrador), o deserto estará mais próximo do que se imagina.

São tempos de Sanasas e Paganos da vida. Ou da morte. Uma extermina as árvores campineiras e o outro lava as mãos para a violência que extermina os campineiros.

Circulasse hoje, o inesquecível bonde “10” viajaria pelos trilhos com o nome trocado na placa de seu destino. Em vez de “Castelo”, o bonde dos “pés vermelhos” viria com a inscrição “Deserto”. Não resta uma árvore em volta da velha caixa d’água. Dizimadas pela estatal da água, as árvores darão lugar a uma praça futurista, talvez a primeira do mundo sem árvores. Para acompanhar a “evolução” da mente de seus planejadores, quando aquele deserto não der mais água, o castelo d’água não fará mais sentido. Será demolido e, em seu lugar, vão perfurar um poço artesiano, como se faz em regiões onde a água é rara, dura de encontrar. Tudo em nome da tal “importância geodésica”. Acharam o nome bonito e não falam em outra coisa.

Será que decidiram levar ao pé da letra o que encontram nos dicionários? Se for assim, vão botar fogo no Botafogo; transformar o Taquaral numa imensa taboca forrada de bambus e não permitir que se plante outra árvore no Cambuí que não seja o cambuizeiro. Também derrubarão, sem dó nem piedade, todas as árvores do Bosque, mantendo ali apenas os jequitibás. Como fizeram com aquele alecrim, abatido no Largo da Catedral.

As casas velhas da Vila Nova serão implodidas… Ai daquele que enxergar no Furazóio. Nenhum comércio poderá funcionar na Vila Industrial: ali será exclusivo das indústrias. Quem não for ponte-pretano será expulso do bairro da Ponte Preta. Quem não virar copos e mais copos não passará nem perto do aeroporto. No Ouro Verde, só se beberá café. Na Saudade, só viverão os mortos. Na Swift, exclusivamente moradores embutidos, mas quem tiver vocação para sapo ganhará o direito a um lote no Jardim do Lago. O bairro do Guanabara será reduto exclusivo dos cariocas e quem não for ferroviário não poderá ir à Estação. Refugiar-se da violência na Serra das Cabras, nem disfarçado de bode. Na Boa Vista, não será permitido o uso de óculos e quem não tem sorte não será bem-vindo ao Jardim do Trevo.

Já imaginou que cidade chata? Chata e condenada. Nos dicionários está escrito que campinas são “campos sem árvores”. Por isso, a turma do seu Pagano está seguindo à risca o que manda o “pai dos burros”, principalmente quando ele chama seus servidores de “meus filhos”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *