Você não vai?

Só agora, com os exemplares do início de julho chegando, vi o anúncio do 5º G Can 90 A Ae, sucedido pelo 2º B Log, convidando os artilheiros para a festa do Dia da Artilharia, que aconteceram dia 12 — do mês passado. Coisa do “desserviço” de Correios. Esse “5º G Can 90 A AE” era o Quinto Grupo de Canhões de 90 milímetros antiaéreos “. Pelo convite, o” 2º B Log “, que não existia quando saí de Campinas, é o Segundo Batalhão Logístico.

Para quem viveu (e sobreviveu) sob a ditadura militar, 5ºG Can, 1º BCCL e EspcEx eram siglas sinistras — simbolizavam prepotência, repressão, violência, tortura e morte. O BCCL era o “Batalhão de Carros de Combates Leves” (até hoje, não sei se “leves” eram os combates ou os carros), e EspcEx, a Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Nunca fui com a cara deles e eles também não faziam nada de importante para que a comunidade sentisse um fio, que fosse, de simpatia por eles.

No regime militar, eram mal-educados, ríspidos, frios com todo mundo — menos com os que os bajulavam. Tinham a lealdade (subserviente) e a admiração (medrosa) dos medíocres. Um major daquela época também era professor de Educação Moral e Cívica. Quando soube da minha profissão de jornalista, provocou: “Com jornalista não se conversa, espanca-se”. Ele sabia que nós sabíamos o que se passava nos porões onde eles viviam.

Como nunca escondi minha repulsa ao regime que os sustentava, a antipatia era recíproca. Talvez o peso do jornal os impedisse de ir além das ameaças ou provocações, jamais respondidas. Felizmente, parece, os tempos e os militares são outros — ódio e arrogância deixaram de ser lições que se ensinam nos quartéis.

Por duas vezes, Beto Godoy e eu fomos convidados para uma “conversinha” com eles. O Beto, numa reportagem sobre a região Bragantina e o então prefeito de Bragança Paulista, senhor Hafiz Chedid, definiu, com muito acerto e senso profético, que aquele era o último representante do “coronelismo” em São Paulo. No interrogatório, os militares queriam saber: “O que o senhor quis dizer com essa história de coronel aqui!?”.

Comigo, a primeira vez foi patética. Estava aquartelado em Campinas um tal de major Argus, encarregado de estourar focos de subversão na cidade. Escrevi numa reportagem sobre a decadência da Polícia Rodoviária (com sua incorporação a essa selvagem Polícia Militar), que ela perderia a condição e a fama de “corporação fardada mais honesta do Brasil”. Esqueci de que militares também usam fardas…

O tal major me fez esperar por quatro horas, numa sala vazia, sem cadeiras. A inquisição durou duas horas e ele queria saber se a redação do Estadão era um foco de doutrinação comunista e outros absurdos. Perguntou o que eu estava lendo. Respondi: “Ascensão e queda do III Reich”. E emendei: “Já vi a ascensão; agora estou louco para ver a queda…”.

Na segunda vez, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica brigavam para ver quem “pegava” o padre Comblain. Eu também queria “pegá-lo”, não para matá-lo, como os militares, mas para um relato sobre a guerrilha do Araguaia. O tal de Argus, babando, encafifou que eu sabia onde estava o padre. Fui salvo pelo então tenente-coronel Pettená, que não sabendo de nada, entrou na sala, e foi logo perguntando: “Ôi! Ocê vai no piquenique do Círculo, domingo?” Foi cômico. Nunca entrei no Círculo Militar e respondi: “Não sei, coronel, vai depender desse major. O senhor manda mais do que ele? Então, manda ele deixar eu ir ao piquenique”. O major queria morrer.

PS: Fui dispensado e não fui ao piquenique.

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