O detetive

Ele jura que foi há tanto tempo, que nem se lembra mais do nome do cliente, da mulher que o traiu nem do médico que quase morreu. Conversa de balcão de café em padaria. Ele me viu com o Correio debaixo do braço, puxou conversa: “Quase fui responsável pela morte de um inocente na sua cidade…” Disse que ganhava a vida como detetive particular aí na terra. Hoje, não mora mais aí e prefere se arriscar como vendedor de agrotóxicos. “Defensivos agrícolas”, corrigiu rápido, para não ser confundido com vendedor de tóxicos.

O casal tinha um filho de ano e meio. A cada semana, ela levava o bebê ao pediatra. Ele andava desconfiado. O filho esbanjava saúde, “por que tanto tem de ir ao médico?”. Preferiu escancarar de vez o que julgava ser um adultério. Contratou o vendedor, então detetive. Era só ficar de olho nas idas dela ao consultório, no endereço marcado num cartão. “Mas o senhor acha que ela dá escapadas levando o filho pequeno, doutor?” Pagou pra ver.

“É hoje! Ela marcou consulta de novo”, avisou. Mas não esperou o desfecho. Invadiu a sala de espera com o 38 engatilhado. Estourou a porta e disparou. O médico não estava ali. Encurralou a recepcionista no balcão, enquanto mamães fugiam com seus pimpolhos no colo. “Para onde ele levou minha mulher com meu filho?” A coitada, molhada de medo, balbuciou: “Ele quem?! Que mulher?! Que filho?! Quem o senhor procura?!”. O pediatra chegou por uma porta e o marido, duas vezes enganado, fugiu pela outra, antes que o médico injuriado chamasse a polícia.

Quando marcava “consulta” para o filho, a mulher nem saía de casa. “Atendimento em domicílio, sabe como é? E o médico era outro. Nem médico, talvez. Chegou loiro e saiu moreno; entrou de branco e foi embora de jeans. Persegui o cara até a rodoviária. Tomou um ônibus da Viação Bortoloto e nunca mais voltou. Quando o marido apareceu, contei que ela nem saíra de casa naquela tarde. Não menti, né?”

Pregado no poste: “Não existe político transparente; só político oco”

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