Vai começar de novo

Da primeira Copa, a gente nunca se esquece. Deve ser mais inesquecível do que os soutiens (ou seria sutiã, hã?) da Patrícia Luchési. Falar nisso, ela sumiu. Com ou sem sutiã, hã? Alguém se lembra de como viveu a primeira conquista de uma Copa do Mundo em Campinas? Eu sobrevivi. Ela entrou pelos ouvidos e saiu pela boca, num berro de torcedor frustrado, daqueles que amargavam, havia oito anos, o desastre do Maracanã e a humilhação na Suíça – humilhação imposta por um bando de húngaros mágicos, magiares, capazes de fazer quatro gols num time que tinha verdadeiros deuses da bola: Julinho, Nilton e Djalma Santos, Zizinho… Como podiam perder? Os “ciganos” da Hungria só não previram a má sorte contra os alemães e, diante deles, caíram. Alemanha, campeã; Hungria, uma das melhores equipes da história, vice.

A saga na Suécia foi nossa. Uma Copa feita para ser ouvida, posto que, há 40 anos,  a televisão não chegava lá – tempo em que satélite era sinônimo de Sputinik e computador era chamado de “cérebro eletrônico”, hoje, autênticos “débeis mentais”. Os soviéticos, donos da façanha do Sputinik, também diziam ter um cérebro eletrônico que previa a vitória deles no campeonato. Só não previu ter de enfrentar Pelé e Garrincha – gênios de corpo e alma muito superiores à cibernética. Para falar a verdade, nem nós, brasileiros, pressentíamos o que estava para acontecer. O encanto veio depois

A ansiedade campineira começou quando, inacreditavelmente, a seleção pôs de joelhos um trio de ferro: Áustria, Inglaterra  e Rússia. Aí, Pelé desmantelou o País de Gales e Campinas inteira parou para ouvir a aventura narrada por Edson Leite e Pedro Luís em cachos de alto-falantes, sintonizados na Rádio Bandeirantes, pendurados em postes espalhados pelo Largo do Rosário. Nas Lojas Americanas, a discoteca trocou sucessos de Celly Campello, Roberto Luna, Maysa, Germano Mathias e Agostinho dos Santos pelo som do rádio. Naquela tarde de quarta-feira, se percebeu que era possível “chegar lá” de novo.

Uma semana depois, veio a França. Quem ficava em casa ouvia o Edson e o Pedro pelo rádio e quem já tinha TV também ouvia essa dupla maravilhosa, vendo slides projetados na tela com imagens paradas dos jogadores. Se bem me lembro, foi nesse jogo da semifinal que os torcedores decidiram comemorar cada gol com rojões, guardados para as festas juninas, que espantavam as últimas andorinhas. A partir daqueles impensáveis 5 X 2 é que o sonho pegou fogo. Não se falava em outra coisa.

Domingo, 29 de junho, a final contra os donos da casa. Para me acalmar e fugir da tensão pré-mundial, não sei por que, Zezé de 32 me escondeu na sessão “Gazetinha” do cine Carlos Gomes, que começava bem na hora do jogo. Filme: “Festa de casamento”. Na platéia do maior cinema da cidade, dos 1.800 lugares, 1.798 estavam vazios. Quando ouvi os rojões, corri para a portaria. O porteiro, “seo” Quim, gritava. O jogo estava 1 x 1. Demorei para deduzir que, então, o Brasil estava perdendo. Varei as cortinas apavorado e fui me sentar lá em cima, no balcão. Vieram mais quatro rajadas e preferi não me aventurar atrás do resultado.

“O Brasil é campeão do mundo!” “Seo” Quim urrava no saguão. Saímos antes de o filme terminar. Campinas inteira pulava na cidade. Num passe de mágica, as vitrines da Anauate, Baby, Elite, Ezequiel, Clipper, Soberana ficaram verde-amarelas, cheias de manequins que conhecíamos de terno e gravata, vestindo o uniforme da seleção.

Amanhã, vai começar de novo. Será que vai acabar bem?

Pregado no poste: “Pizza portuguesa: já vem de bigode”.

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