Um poste para Nique

A esta hora da manhã, ele deve estar lá no Regatas, em Sousas. Refestelado, já jogou seu futebol sagrado de todos os sábados e domingos – e olha que ainda é um grande meia-esquerda, pelo menos era o melhor do time que jogava e treinava num campinho da Fepasa, bem atrás da fábrica de chapéus Cury.

Quando era garoto, bem antes de ser engenheiro-civil, ele também brilhava nos céus daquele campinho, como o melhor “empinador de pipa” que Campinas conheceu. Era um mágico, capaz de mandar seu “maranhão” para os ares a perder da nossa vista. Quando recolhia a linhada, naquela maquininha de madeira esculpida à sombra de uma mangueira pelo “nono” Guido, conseguia até prever o tempo: se o “papagaio” viesse molhado, era chuva na certa. E ele não errava. “Mágico? Esse menino é feiticeiro!”, diziam dele as donas-de-casa, que corriam para recolher as roupas no varal. Chovia, mesmo.

Jamais ia para o campinho, jogar bola ou empinar o “quadrado”, sem a companhia do Lulu, vria-lata branco que viu ele e os irmãos mais velhos nascer e crescer naquele pedaço de Campinas. Um hábito diário: às quatro e meia da tarde, depois de fazer a lição mandada pelos professores do Ateneu, e depois que passava a perua da Vila Brandina, com o leite, e o Nico, trazendo os pães na garupa da lambreta, ele subia a Rua Professor Luís Rosa, ainda com um “léi” de pão com manteiga na mão e um toco de banana na outra. E o Lulu atrás.

Calmo, sempre observador das coisas do chão é do céu. Nas tardes de vento que anunciavam o outono, além da bola, levava a “pandorga”, para mais uma exibição de gala, acima das nuvens da cidade. Tinha admiradores e admiradoras, estas secretas, porque a vigilância das mães era severa, embora fosse de conduta exemplar – educado, gentil. Tímido, sim. Uma timidez que aparentava soberba para os desconhecidos. Daí, seu apelido: “Dom”. Para elas, o “Donzinho”.

Sei que continua craque, mesmo depois de já ter vivido mais de meio século. Ainda deixa para trás muito zagueiro jovem dos times do Regatas — me contaram. Na “pipa”, também é imbatível, para orgulho do filho e das filhas. Tem bom caráter e boa índole, se não, não seria tão querido pelos animais. Só a sensibilidade dos bichos sabe distinguir quem tem “estrela na testa”. Pode reparar. Não consigo imaginá-lo, sem estar acariciando a cabeça de um cachorro. Essa virtude também o acompanha pela vida a fora. Agora, seu companheiro se chama Nique.

E aí, começa a aflição da família e a razão desta crônica em forma de apelo aos médicos. Pelo menos aos médicos-veterinários. Nique é bem diferente do Lulu. Discreto, elegante e educado como o dono. E esconde a raça e o pedigree, ao contrário do ilustre e inesquecível antecessor. Nique não sai sozinho pela ruas nem faz xixi nas calçadas. Para ele, poste é poste, nada mais. Enquanto para os demais parceiros da espécie, é banheiro público…

Nique é um desafio para a ciência. Talvez só urologistas ou psiquiatras de cachorro possam diagnosticar ou, como Freud, explicar. Nique só faz xixi se o dono mostrar para ele um “balão-galinha”. Sabe o que é isso ou não teve infância? É aquele feito de folhas de jornal, sem mexa nem tocha. Basta por fogo numa das pontas, que ele sobe – não mais do que meio metro, mas altura suficiente para aliviar o cachorro.

Será que alguém pode explicar esse reflexo condicionado? Afinal, um campeão de empinar “pipa” não pode chegar a essa idade como “soltador de balão-galinha”. Doutor, quem está condicionado aí: o meu amigo ou o cachorro dele?

Pregado no poste: “Vem, Nique! Vem! Tá na hora…”

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