A namorada que não temos

Ela nem precisa ser bonita ou sensual. Ninguém pede uma loira estonteante, inteligente ou não; muito menos, se morena, deve ser ‘salerosa’. Se for mulata, também nada que chegue ao exagero da Globeleza. Pode ser asiática, mas que guarde seus mistérios para o Oriente. Ruiva ou negra, quente ou fria, tudo que se quer é uma mulher. E se for índia? Muito interessante. Tomara que dispare sua flecha como o Cupido. Seja quem for, que venha valente, guerreira, sincera, leal, amante inigualável e competente, onde quer que esteja, na cama, na mesa ou no banho. E no trabalho.

É fundamental que todos tenhamos motivos mil para gostar dela. Mas a beleza não é (tão) fundamental. Não é uma mulher para Vinícius que cobiçamos — seu amor por nós há de ser infinito enquanto dure, mas que dure, posto que é chama. Esperamos dela fidelidade absoluta. Que não nos decepcione nem traia as esperanças que a ela confiamos. Sua vida com a gente tem de ser de dedicação plena e de recompensa pela compreensão nossa de cada dia — que já está a ponto de se esgotar. Sabe aquele momento, quando a compreensão decai para paciência e já não se agüenta mais tanta indiferença? Estamos assim.

Esse namoro pode se apagar antes de arder. Queremos (e merecemos) carinho, atenção, desprendimento, compromisso só com os nossos anseios, um sorriso, um afago, um gesto meigo. Presença. Falta recíproca em suas atitudes. Nós, sempre de braços abertos e o coração cheio de amor para dar; ela, olhando de lado, às vezes para o chão, quase sempre de costas para os nossos apelos. Nem a uma piscada ela corresponde. Incapaz até de um pequeno mordiscar de lábios, de um riso disfaçado, do menor sinal de satisfação por estar conosco.

Nós, que esperamos dela um olhar enviesado como o da Capitu, só recebemos um de soslaio, vazio, sem mensagem de amor ou paz. Parece sempre olhar para ninguém, querer ninguém, amar ninguém, sonhar com ninguém. E ela tem tudo para fazer com que a cada dia saiamos de casa com a melhor das intenções, a melhor roupa, perfumados, levando um buquê de rosas, loucos para vê-la. Ela nem percebe e vai levando sua vidinha de ouvir quem nos despreza, nos tratando como reles paqueradores, sem saber que poderia ter uma legião de amantes do mais fino trato. Nem sabe a diferença entre o que ouve e o que, de fato, houve.

Estou ouvindo um coral de mães campineiras, nesta véspera do Dia dos Namorados: “Vocês merecem alguém melhor”. E mãe é mãe…

Pregado no poste: “Izalene, a namorada que não temos e nunca nos terá.”

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