Sorrir e pensar

Os escritos do nosso J. Toledo são assim: para sorrir na hora e, depois, nunca mais parar de pensar. Ele fisga a gente e volta e meia algo que escreveu há meses volta a bailar no pensamento. Aí, outro sorriso é inevitável e mais adiante…

Está na praça a nova coleção de crônicas desse mestre surreal, mago dos colchonetes. Chama-se “Dois uísques em Cafarnaum” – que pode ser a bagunçada cidade da Galiléia, onde Jesus anunciou sua doutrina e fez alguns milagres; um lugarejo do sertão da Bahia, perto do Morro do Chapéu, ou, como diz o Aurélio, depósito de coisas velhas, lugar de desordem, cafundó – será do Judas? Ou Ju do Cudas? (Falar nisso, caro J., há em Portugal uma cidade de nome Cu do Judas.)

Para ficarmos mais nos sorrisos — o que for para pensar você encontrará no livro — aí vão títulos e epígrafes de capítulos de “Dois uísques…” Saboreie em doses para leoa:

A quem interessar, poça!; Pequenas troças sobre um grande troço; O impávido colostro; Polonaise Hellman’s; A hora e vez de Augusto matracar; Esperando bidet; Há 50 ânus (disse a enfermeira ao proctologista, apontando a sala de espera); Na pior das hipófises; Meu tipo inesgotável; Jack, o stripteaser; Babando aqui como Ali Babá; Noches de cabide; Quântico dos quânticos; Chuvas Regal & dádivas contemporâneas; As alegres comadres de Windows; Simplesmente um cool para conferir; Sem ânus de solidão (García Márquez te mata!); A pomba gira e a lusitana arrota (antológica!).

Mais? Muita gente escapou da morte, mas nenhuma delas da vida; Assim na vida como na morte, o importante mesmo é manter o penteado; Carregando uma estátua de Joana D’Arc, fui preso por dois PMs por porte de heroína; Melhor filosofar no bidê que dar atenção a você; Há algo de podre no reino da Dona Marta; Incrível como pessoas vazias têm sempre o dom de nos encher o saco; Tanto a direita quanto a esquerda são inofensivas — o perigo está na estupidez; É perigoso comer bem no meio de gente que arrota mal; Samba no pé, sexo na cabeça e borboletas na barriga podem confundir o legista; Só o homem que renuncia a tudo coloca-se na posição de compreender o nada; Viver e morrer sem nada compreender é privilégio das multidões (genial!); Inútil ler Camões sabendo que a Inês é morta. Só mais uma: A verdade de hoje é a prova cabal de que não se fazem mais mentiras como antigamente.

Pregado no poste: “Pode encher a cara!”

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