Sertãozinho ontem, Campinas hoje.

O jornalista Galeno Amorim me diz que até hoje tem vergonha de se encontrar com a escritora Lygia Fagundes Telles, a grande dama da nossa literatura. Ela recebeu semana passada o prêmio ‘Camões’, o mais importante da língua portuguesa, na Feira Internacional do Livro do Rio de Janeiro.

Galeno tem a vida dedicada às letras – literatura infantil, principalmente. Começou correspondente do ‘Estadão’, na trabalhadeira cidade de Sertãozinho (é inacreditável como se trabalha naquela terra!); fundou uma editora em Ribeirão Preto, a Certas Palavras; como secretário da Cultura, criou a feira do livro a céu aberto em Ribeirão, e agora é coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura do ministério do Gilberto Gil.

Essa vergonha que ele tem da Lygia, toda Sertãozinho também sente. Só podia ser coisa de político. Era 1986, o Galeno propôs que a Câmara Municipal desse para a escritora o título de “Cidadã Sertanezina”. Você acredita que os vereadores rejeitaram!?

Gesto de mesquinharia peculiar a determinados tipos assim. Como a proposta partiu do MDB, a “tchurma” da Arena achou de vetar. Não dá nojo?

Na época, a baixeza escandalizou a grande imprensa e os meios literários brasileiros; o ‘Pasquim’ fez uma farra com a estupidez e a ignorância de certos “representantes” daquele povo, que de ignorante não tem nada – tanto que faz de Sertãozinho uma das cidades mais prósperas do Brasil. Lá a gente respira força de vontade e o prazer de fazer. Sabe qual é o lema deles? “Quando nóis qué, nóis num pede – nóis faiz!”

Para honra e dignidade do lugar, Lygia viveu e estudou lá quando criança, quarta filha do dr. Durval de Azevedo Fagundes e de dona Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, nascida em São Paulo, a 19 de abril de 1923.  Seo Durval era promotor público e delegado de polícia.

O primeiro romance de Lygia, “Ciranda de Pedra”, saiu pela editora O Cruzeiro, em 1954, e inspirou uma novela das seis, em 1981, com a Lucélia Santos, Priscila Camargo, Sílvia Salgado, Eva Wilma e Adriano Reys. Com algumas pitadas da também sua “As Meninas”, de 1973, parte do enredo reúne reminiscências da infância da majestosa autora vivida em Sertãozinho. Lygia sempre escreve bem e bonito, assim como é uma mulher de bem e bonita – e como é bonita a Lygia! Certa vez, fiz sala para ela e Tônia Carrero, juntas!, no ‘Estadão’. E ainda dizem que Deus não existe… Eu não conseguia falar!

Agora, se tudo der certo e Deus Nosso Senhor Jesus Cristo ajudar, algum amigo do Galeno vai reparar essa vergonha e reapresentar a proposta de dar o título de cidadã para a Lygia. Se ela não aceitar, quem irá contestá-la?

Sempre que a política aparece, a cena suja. Assim como sujava nossa secretaria de Cultura (cultura da dona Izalene), que perpetrou aberrações como não deixar nossa orquestra sinfônica tocar Carlos Gomes na Semana de Carlos Gomes; não saber a diferença entre antiquário e artesanato; alegrar a cupinchada cm cachês inacreditáveis; homenagear Stalin (mais um pouco estariam se arriando para Hitler; os siameses Pinochet e Pinochet de Cuba; Chávez, o bufo, et caterva) ou tratar com o maior desrespeito a paisagem da rua mais importante da cidade, justamente a que homenageia os escravos, libertos pela pressão social a 13 de maio de 1888.

Eles odeiam o povo. Principalmente os mais humildes. Sempre.

Pregado no poste: “Pague seu imposto, para sustentar autoridades e seus parentes”

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