Sempre ele!

Não acredito em bruxas, mas que os gênios existem, existem. Há um que me aparece todo dia. Como ainda há pouco. Quando saboreio uma xícara de café, ele surge na lembrança, na emanação da fumaça e do aroma da melhor bebida do mundo. Quase como o gênio da lâmpada. É assim em toda a aprte, dos barracos às mansões, das oficinas aos castelos, das carroças aos jatos, das celas aos prados. É o gênio Alcides Carvalho, sempre discreto na sua humildade dos gigantes da natureza, como seus herdeiros da Seção de Genética do nosso Instituto Agronômico, que ele jamais abandona.

Pouco antes de sua morte, conversávamos em sua casa e ele fazia um pedido aos colegas, como se fosse o último: “Por favor, cuidem da carreira dessa moça. Acredito muito no trabalho dela. Ela tem futuro!” Pensei: “Nossa! Quem será a ‘eleita’ que dividirá com o herdeiro Luís Carlos Fazuoli a santa missão de não deixar o café esfriar?”

Agora, conversando com o Oliveiro Guerreiro Filho, outro sacerdote daquele templo sagrado da pesquisa, lembro-me de quem o mestre falava. Era da cientista Maria Bernardete Silvarola (encantado!). Ela, o Fazuoli e outro grande da Unicamp, o Paulo Mazzafera, acabam de realizar o sonho do doutor Alcides e do Lourival Mônaco, um dos primeiros discípulos – o café sem cafeína. Puro, natural e o melhor, como é tudo o que o mestre mandava e seus seguidores perseguem e alcançam.

(A Unicamp não desiste do Alcides. Já que ele resistiu ir para lá, e para a USP, o Mazzafera veio para o instituto. Só mais uma coisinha: finalmente consegui escrever o nome do Fazuoli sem chamá-lo de ‘Alcides Fazuoli’, e do doutor Mônaco, sem chamá-lo de ‘Leonardo Mônaco’, nome de um diretor do Corínthians, ao tempo em que eu o aporrinhava e ao mestre, lá na Fazenda Santa Elisa, para fazer reportagens sobre café.)

Esse café descafeinado é mais uma façanha do Alcides e sua gente do IAC. Ele me falava com muita esperança dessa bebida e sabia que estava no caminho certo, quando Deus lhe apontou o caminho do Céu. Até ele partir, a Maria Bernardete virou sombra do mestre, na cidade e no campo. E ele alertando: “Anota tudo no caderninho, porque quando eu morrer, você não se esquecerá de nada…” O doutor Alcides anotava todas suas experiências, que ofereceu como dádiva ao mundo, em cadernetas de padaria. A obra está lá. Nos anos 50, ele chegou às primeiras variedades resistentes à ferrugem e ouvia dos colegas: “Larga isso, Alcides; não existe ferrugem no Brasil!”. Quando a ferrugem chegou, em 1970, ele tinha a solução – plantas resistentes, imunes à doença.

Agora, que o mundo suplica por café descafeinado, é hora de lembrarmos que quando a Bernardete e o Fazuoli assumiram a saga do mestre, também ouviram: “Deixem isso pra lá.”. Quem conheceu Alcides Carvalho sabe porque ele jamais se omitiu.

Pregado no poste: “Bernardete, Fazuoli e Mazzafera, parabéns e obrigado”

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