“Quem bate?”

A melhor, mais importante, divertida e generosa atração turística cultural da cidade de Franca é seu historiador José Chiachiri Filho. Já conversamos sobre ele aqui. Há quase trinta anos, não enxerga nada. E eu o conheci quando ainda enxergava, numa visita à sua casa, para uma reportagem sobre a Ponte do Jaguará, que liga São Paulo a Minas, em cima do Rio Grande. Ele selecionava slides para uma palestra, já com alguma dificuldade. Uns cinco anos depois, quando nos vimos novamente, parecia enxergar melhor ainda a vida e o mundo. Enxerga, mesmo. Lição de vida esse “Chiacha”.

Diretor do Arquivo Histórico de Franca, espantoso!, é capaz de conhecer o ano de um documento só de tocar o papel. Foi saindo com ele desse arquivo, rumo à sua casa, que nos espantamos de novo. Aquela santa que mora que em casa manobrava o carro no pátio da repartição e pediu que eu indicasse o caminho. Mas quem ensinou foi ele. “Saindo do portão, vire à direita e no semáforo, dobre à direita outra vez.”. E fomos em frente. “Aqui na praça, dobre à esquerda quando chegar àquela casa verde. Depois do terceiro quarteirão, esquerda; e pare na frente do número tal…”. Meu Deus!

Com licença do bom pessoal da EPTV aqui de Ribeirão Preto, reproduzo o que o sítio da emissora (casualmente no link “Sítio do Caipira”) fala sobre esse grande homem:

“José Chiachiri Filho é escritor, doutor em História, coordenador do museu que tem o nome de seu pai e diretor do Arquivo Histórico de Franca, um dos maiores acervos da memória da região nordeste de São Paulo. Aos 55 anos, escreveu a própria história com bom humor e inteligência. Por isso, o saldo é tão positivo: tem três filhos, uma mulher adorável, a professora Suzi, além de dezenas de amigos e trabalhos, mais os livros publicados.

Só pôde ver o rosto do primeiro filho. Mas o que Chiachiri não vê, ele sente. Pode descrever as pessoas. Conhece estados de espírito pela voz. Uma sensibilidade muito desenvolvida, também, para perceber o caráter e até o temperamento e o tipo físico do interlocutor. Mas onde é que entra o caipira?

Entra na loucura que ele tem por ranchos e “ranchadas”, regadas a cerveja, uma ou outra caninha, muita conversa boa e muito cigarro de palha. É ele quem enrola o próprio cigarro, sem ajuda de ninguém. Depois de coar um bom café, que ele próprio faz, misturando açúcar e pó, Chiachiri se senta para triturar o fumo num velho aparelho que herdou do pai. É um ritual caipira. Tritura, mistura, manuseia o fumo de corda e ajeita na palha. Enrola. Passa a língua para colar. Está pronto o cigarro, basta acender.

Aos que dizem que café e cigarro — mesmo de palha — prejudicam a saúde, ele responde com uma daquelas gargalhadas deliciosamente espontâneas. E com exercícios: anda na pista do clube de Franca duas vezes por semana. Vai descrevendo a pista como se estivesse enxergando. Diz que ali passam bichos, conta quem vai e quem vem. E não é tudo: filho de um jornalista árabe, com mãe descendente de índios caiapós, Chiachiri é um caipira sui generis. Desde pequeno, já chamava a atenção pela gulodice, pela preguiça (um dorminhoco!) e pela inteligência. Mas se nós caipiras estamos na Internet, Chiachiri também está. Ele acessa o mundo sem problemas. O computador, que ganhou o apelido de Rudolf, por causa da voz metálica, faz as vezes dos olhos. Chiachiri pode ‘ler’ e navegar sem problemas, por causa do sistema de ‘viva voz’.

E quem pensa que Chiachiri tem problemas por causa da cegueira está certo. Mas são todos problemas superados. Ele mesmo conta a história do dia em que estava sozinho em casa e foi atender a campainha. Um causo saboroso e, o melhor, verdadeiro:

— Abri a porta, perguntei quem era, nada! Nenhuma resposta! Fechei a porta, tocaram a campaínha de novo. ‘Diacho’, pensei. Vou abrir e quem está lá? Nada, silêncio absoluto. Deve ser algum moleque, que coisa! Fecho a porta, tocam de novo. Terceira campaínha! Já fui abrir bravo! Já estava começando a xingar quando uma amiga que vinha chegando me disse: ‘Professor, não faça isso! É o surdo-mudo vendendo cabide!’

Ele conta e dá nova gargalhada. Sabe que acabou de descrever a síntese perfeita da comunicação impossível. Outra proeza extraordinária de quem supera todos os limites, além de trabalhar, dia e noite, pela preservação da memória do interior de São Paulo. Grande caipira, esse doutor Chiachiri!’”

Pregado no poste: “Dedico esta crônica à grande atriz Bruna Marquezini e à querida psicóloga Fabiana Bonilha”

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