Quem bate?

De cada quatro cidades paulistas, uma tinha filial das Casas Pernambucanas; sem ela, não era bem uma cidade. Mais: em lugar sem cinema, ela passava filmes na parede da loja, acompanhado de folhetos explicando o enredo! Além desse marketing pioneiro e inacreditável, as Pernambucanas pichavam pedras, troncos de árvores e porteiras pelas estradinhas de terra Brasil afora. É sério! Uma vez, um ruidoso ‘Fordeco 32’ com marido ao volante, mulher, filhos, sogro e sogra lá atrás, entrou na fazenda do meu sogro. Procuravam a loja ‘anunciada’ na porteira.

Quem partiu de ônibus na Rodoviária de São Paulo jamais se esquecerá da voz do locutor chamando: “Casas Pernambucanas informam as próximas partidas. Passageiros da Viação Cometa com destino a Campinas, 14 horas 20 minutos, plataforma 2. Dirijam-se para embarque e boa viagem! Quem dá aos pobres…”

Em Campinas, havia duas, durante tanto tempo, que parecem abertas antes da chegada do Barreto Leme. A primeira, na Treze de Maio com Ernesto Kuhlmann (avô da nossa Ângela) e a outra, no Largo do Mercado, ao lado do seo Garcia, “o rei das molas”. Sabe por que as Lojas Americanas tem uma entrada pela Ernesto Kuhlmann? Porque a veneranda matriarca da família Abdalla, dona dos dois prédios da Treze, jurava: “Enquanto eu viver, essas lojas estarão uma ao lado da outra.” O jeito foi fazer um em ”L” pelos fundos.

Nas portas da da Treze e da do Mercado, sempre o “Grilo”, boneco de madeira, tamanho de manequim, vestido de guarda, indicado a entrada e a sensação de segurança para os fregueses.

Acho que cada campineiro tinha pelo menos uma peça de roupa feita com tecido das Pernambucanas (naquele tempo, chamavam tecido de ‘fazenda’). Prestígio. Últimos dias do primeiro semestre de 1961. Dona Celina Duarte Martinho vai de sala em sala do Colégio Culto à Ciência e anuncia o modelo primeiro uniforme dos meninos: calça cinza-chumbo com vinco à máquina, cano de pito e camisa branca com um bolso. Meias e sapatos pretos. “As Pernambucanas têm as fazendas certas”.

Tempos de Guerra Fria, o mundo dividido entre capitalismo e comunismo, com uma Casa Pernambucana no meio.

Tudo começou em 1908, no Recife, com a família do sueco Herman Theodor Lundgren, que chegou para ser intérprete, agente e corretor de navios, abriu a primeira fábrica particular de pólvora do Brasil, a “Elephante”, e comprou a Empresa Paulista de Tecidos, em Paulista, cidadezinha do litoral pernambucano. O resto é história: “Quem bate? É o frrrriiio”; “Onde todos compram”; “Camisas Lunfor”; “Marca Olho” e “Da nossa casa para a sua casa…”

Pregado no poste: “Casas Pernambucanas”

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