Que horas são?

Domingo, falamos aqui no Hélio Ribeiro e, coincidência, me liga outro grande radialista, desta vez de Campinas, o Omar Pinheiro Lucas. Lembra? Foi dos primeiros narradores de futebol da cidade, ainda na Educadora, a PRC-9. Tempos de Jolumá Brito, Paulo Barbosa Otranto, Amaury Nascimento (tudo bem, meritíssimo?), Jorge Altenfelder, Otávio Ceschi e Lombardi Neto.
O Omar passou também pela Brasil e foi pioneiro na Cultura, com o José Lamana, Geraldo Sussuline, Antônio de Pádua e o Marco Antônio de Mattos, hoje dando um show de transmissão de vôlei na TV Bandeirantes – no mesmo time do Luciano do Valle, outro contemporâneo do Omar na Cultura. Todo mundo queria o Omar na equipe esportiva – um mestre.
Conversa vai, conversa vem, lembramos de passagens inesquecíveis no velho Teatro Municipal e num filme rodado nesta terra, há 34 anos sem teatro. Incrível, na cidade em que nasceu Carlos Gomes, destruíram o “Teatro Carlos Gomes” e não fizeram outro. Das homenagens ao maestro em Campinas, ainda existem a estátua, a praça, o conservatório musical, a banda, o museu e o Guarani (que do jeito que vai… Vai?). Não é pouco?
O filme é “O caçador de esmeraldas”, com Dionísio Azevedo encarnando o bandeirante Fernão Dias. Desse filme, sei de duas histórias que, acredito, sejam lendas. Dizem que numa das cenas, aparece um “índio” de relógio e, em outra, vê-se o velho furgão da granja da Vila Brandina, que distribuía leite na cidade, passando lá no fundo do pouso dos bandeirantes. O Omar acrescenta mais uma: “Em dado momento, a comitiva a caminho do sertão de Goiás percorre uma trilha onde todo mundo percebe que está marcada por rastros de pneus de caminhão.”. Uma vez, assisti a esse filme ao lado de outro ator, o jornalista Carlos Tôntoli, que fez o papel do “filho bom” do Fernão Dias, e não vi nenhum “índio” de relógio nem o furgão. “Maldade, meu amigo, maldade!”.
No teatro, deve ter sido de matar de rir. O ator e alfaiate João Fida e a atriz, radialista e ex-vereadora Clara de Oliveira faziam um drama que virou comédia. Sozinha em cena, ela lia a carta de um “amante” e, percebendo a chegada do “marido”, acende um isqueiro e queima a carta num cinzeiro. Era a “deixa” para o Fida entrar dizendo: “Que cheiro de papel queimado!”. Só que o isqueiro falhou. Em vez de queimar a carta, a Clara rasgou e jogou o papel picado no cinzeiro. O Fida exclamou: “Que cheiro de papel rasgado!”.
No feriado de 21 de abril, era dia de assistir à “Inconfidência Mineira”. O ator Carlito Maia era o nosso Tiradentes. Ele estava pronto para subir ao cadafalso rumo à forca, quando um garoto (juro que não fui eu nem o Treco) falou mais alto no silêncio da platéia: “Mas tia, ele não morreu na cruz?”. O “carrasco” dobrou de tanto rir. Como foi difícil enforcar o “Mártir da Independência” naquela tarde!
A última: todo ano, na Semana Santa, era levada no nosso teatro “A Paixão de Cristo”, sempre com o fantástico Carlito Maia no papel principal – claro, o de Jesus Cristo. Só que daquela vez, o ator Vicente Ghilardi é que foi escolhido, literalmente, para “Cristo”. O eterno guardião do teatro era o insuperável Geraldo Langoni, também contra-regra. Na hora da crucificação, ele tinha de operar os canhões de luz, para dar aquele clima tenebroso, e, ao mesmo tempo, garantir o som da tempestade, raios e trovões que marcam a tragédia do Calvário. Em meio àquele momento dantesco, o palco clareou demais e todos viram “Cristo” com um relógio de pulso pregado na cruz. Alguém na platéia gritou: “Ei, Jesus! Que horas são?”
Pregado no poste: “TV paga? Nem de graça! TV de graça? Nem paga!”

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