Você já se perdeu?

Além de não achar os lugares onde devo ir, às vezes nem eu mesmo me acho. Não consigo guardar caminho algum, para lugar nenhum. Nunca. Agora, imagine ser assim e viver em São Paulo. Lá, eu era a alegria dos motoristas de táxi. Quando eles me perguntavam o melhor trajeto para chegar ao Estadão, sempre respondia: “Nem desconfio”. Ficavam espantados: “Mas você não trabalha lá?” E na hora de voltar para casa? “Você sabe onde fica essa rua?” Eu já levava na brincadeira: “O senhor não vai acreditar, eu moro nela há 15 anos e não sei. Faça o seguinte: desça a Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção aos Jardins e por ali eu aviso onde entrar. E não me pergunte em que rua vamos entrar, porque eu também não sei”.
Se saio sozinho na rua, dou voltas e voltas, não encontro nada e, de repente, descubro que estou no mesmo lugar. E não é só na rua. Se o prédio, ou a casa mesmo, for um pouquinho grande, dancei. Quando estudava na Puccamp, era um inferno. Um dia, dei de cara com o venerando mestre Benedicto José de Sampaio. Eu já estava lá pelas bandas do sótão, de volta de um intervalo das aulas, e não conseguia encontrar o caminho da sala. Ele não acreditou muito na minha história, mas acabou indicando o caminho. Quando mudamos para o prédio da Marginal do Tietê do Estadão, eu subia para jantar no restaurante do jornal e não achava o caminho de volta para a redação. Descia e subia escadas e nada do 6º andar aparecer.
Semana passada, um amigo caridoso ofereceu carona para me levar até em casa, aqui em Campo Grande. Saímos e ele perguntou: “Onde você está morando?” Falei o nome da rua e ele quis saber onde ela fica. “Eu sei lá!”, respondi. Não sei nem o número, só sei que é um prédio de apartamentos. Numa farmácia, descobrimos o lugar certo. Quando desci do carro (nem me constranjo mais), esse amigo perguntou, intrigado: “Você tem certeza de que é aí que você mora?” Ainda entrei no prédio ao lado. Saí, pedindo desculpas ao zelador. Entrar por engano no apartamento dos outros faz parte da minha biografia.
Vergonha eu passei quando o grande fotógrafo Reginaldo Manente (cinco prêmios Esso) foi me visitar em Ribeirão. Encontrei com ele no trabalho. E para achar minha casa? Manentão não se conformava. Parou o carro numa esquina e perguntou a um homem: “O senhor sabe onde este cara mora? Ele não acha a casa dele!” O homem pensou que eu estivesse com amnésia: “Coitado! Você sabe o nome da rua da sua casa, meu filho?” Eu queria matar o Manente. Fingi a doença, balbuciei o nome da rua e chegamos lá.
PS: Uma senhora de Brasília decidiu que o Pelé não merece o título de “Cidadão Brasiliense”. Em primeiro lugar, título de cidadania é uma besteira praticada por político que não tem o que fazer — eles têm muito a fazer e não fazem nada, mas ganham para isso. Em segundo lugar, qualquer cidadão é mais importante para esta Nação do que qualquer político. Certamente, essa senhora deve ter feito mais pelo Brasil do que o Pelé — pergunte a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, quem é o Pelé e quem é essa senhora. Claro que a maioria conhecerá e respeitará muito mais essa senhora; o Pelé, talvez, ninguém conheça. Pelé, acredito, é alguém querendo aparecer às custas do valor dessa senhora. Um dia, esse tal de Pelé falou que o brasileiro não sabe votar. Sintomaticamente, ele disse isso após uma visita ao Congresso. Eu diria que o brasileiro não tem em quem votar. Por último, qual o mérito de receber o título de cidadania da cidade mais suja do Brasil? Qual a vantagem de receber um título conferido por políticos? Nessa história toda, não sei bem porque, acabei guardando o nome do tal de Pelé e me esqueci completamente do nome dessa ilustre senhora… Perdoe-me, digníssima dona “coisa”.

 

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