Perdemos

Quando ele não aparecia, nosso time tinha o direito de jogar com 12.
Valia por dois em tudo o que fazia. Era o mais gordo de nós, mas um gordo ágil, forte. Sozinho, valia por uma dupla de zaga. Era o mais cordial, também. Sempre chegava sorrindo, a bordo de uma Lambretta, com o nome colado em decalcomania dourada no pára-lama branco: “Volnei”. Quando sua máquina roncava lá no encontro da Delfino Cintra com Antônio Lobo, a meninada, que avistava tudo do campinho da Rua Hércules Florence, gritava: “Boa, Volnei!!!”. Ele sempre era saudado assim, por todos que o conheciam. O único recebido com berro de admiração. Um craque — na vida, na bola, na escola. Gostávamos dele. Não tinha inimigos, não brigava com ninguém.
Naquele campinho, o mais democrático de Campinas, jogavam bola meninos de todas as camadas sociais da cidade. Carregadores de caixa do Mercadão, estudantes de escolas públicas e particulares, ladrões de galinha, filhinhos de papai, filhos das primeiras famílias faveladas e de moradores em cortiços, até garotos de rua, abandonados pelas famílias – filhos de ninguém.
Nenhum se distinguia pelo que tinha, só pelo talento em tratar a bola. Ali, sobrenome e roupas bonitas não valiam nada. Nem os pernas-de-pau eram barrados. Havia lugar para todos. E se treinava até depois de o sol ter ido embora, cansado de queimar nossas costas – não havia sombra nem água fresca; a vegetação mais alta eram os pés de mamona, cuidadosamente preservados para as inevitáveis “guerras”, até aparecer o dono da bola do dia para que a partida começasse.
E antes de a partida começar, par ou ímpar, para a escolha das equipes: “com camisa” e “sem camisa”. Os “cobras” eram disputados e escolhidos primeiro: Lemão, Lineu, Maninho, Fábio, Lúcio, Admir, Kadão, Jamelão, Esquerdinha, Júlio, Robertão, Wilson Peludo, Fraju, Bita, Paulinho, Clóvis, Ênio, Odair, Tony Gato, Lúcio Furlan, e os dois zagueiros: Palante e Volnei. Esses dois tinham de jogar um de cada lado, se não, desequilibrava tudo. O Volnei nem se preocupava em usar camiseta e calção; entrava em campo com a roupa do corpo, com ou sem camisa. Os dois times gostariam muito de tê-lo na defesa.
Nunca vi o nosso Volnei xingando um adversário nem jogando de forma desleal, apesar do corpo avantajado. Conversava com todos, brincava, suava a camisa, dava um show de bola. Nós ali, jogando bola com o filho do ilustre magistrado, doutor Valdemar César da Silveira, nos tratando de igual para igual, sem petulância. Alguns ali eram alunos de Português da irmã dele, dona Vilma, ainda em início de carreira, no Colégio “Culto à Ciência”, pessoa de uma delicadeza e de uma calma para nos ensinar, de quem ninguém se esquece.
Há dez dias, gente que não devia ter nascido não deixou nosso Volnei entrar em casa, quando ele guardava o carro. Foi baleado no portão. Socorrido pelos vizinhos, passou uma semana no hospital, deixando a todos perplexos. Perdemos de novo. Estamos tristes por mais essa derrota da vida, numa cidade já quase sem vida.
Agora, o Volnei está no Céu. Deus gritou: “Boa, Volnei!!!!”.
PS: “A tchurma dos direitos humanos já procurou a família do Volnei?”

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *