Paixão com certidão

Você leu a “Paixão e glória do Términus”, domingo passado, aqui na nossa revista? O Horácio Marana foi tão fiel que, parece, psicografou a alma do hotel naquela reportagem. Mas há duas passagens de que eu não me esqueço naquele ponto lendário de Campinas. Uma aconteceu com o nosso Eustáquio Gomes e a outra comigo e aquela santa que mora aqui em casa.

Sinal dos tempos.

Hoje, qualquer repórter que queira entrevistar um general será atendido na hora, sem prepotência nem arrogância. Mas no tempo da ditadura, militar não conversava nem com a mãe. Pois o nosso Tatá começou a dar show em todo mundo. O secretário de redação, Carlos Tontoli, mandou o Tatá tentar entrevistar um general hospedado no Términus. E não é que o nosso herói conseguiu? Ficou tão entusiasmado com a façanha e o furo, que se esqueceu do elevador e desceu voando as escadarias do hotel. No saguão, nem viu a porta de vidro à frente e vazou para a calçada da Francisco Glicério, deixando atrás um estrondo de vidro estilhaçado. Como medo de ser tomado por terrorista, se mandou para o jornal, naquele tempo pertinho dali, na Rua da Conceição.

Entrou na redação e foi logo anunciando: “Seo Carlito, estouraram a porta de vidro do hotel do general…”. Carlitão, assustado, quis saber: “Algum atentado? Quem estourou a porta?”. Tatá: “Fui eu. Mas ninguém se machucou.”. Até hoje, não sei quem pagou o prejuízo…

E essa aconteceu em 1976, com as cidades já coalhadas de motéis e “liberô” geral. Fomos a um casamento em Campinas e, fim de festa no começo da madrugada, em vez de pegar o último Cometa para São Paulo optamos pelo primeiro hotel que veio à cabeça: “O Términus!”. Fui todo pimpão com a santa, contando aquelas histórias que o Marana contou na revista. “E se hospedarem a gente no mesmo apartamento da Emilinha Borba, já pensou?”. O recepcionista estragou a noite: exigiu certidão de casamento! Fomos salvos por uma sobrinha de dois anos que nos acompanhava – dela não exigiram certidão de nascimento nem perguntaram se estava sendo raptada. Julgaram que seria nossa filha e “quem tem filha é casado…”. Aquela noite quase termina debaixo do viaduto Miguel Cury, o que construiu o Términus…

Pregado no poste: “Não deixe o berço de Campinas virar shopping.”

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