Os sobrinhos do coronel

Depois, virou piada, mas aconteceu há quarenta anos, entre Capinas e Valinhos.

Diz a repórter Teresa Costa, terror dos medíocres, que o Exército quer vender sua coudelaria (do Exército, não dela), a Fazenda Remonta, que fica parte aqui, parte em Valinhos. Ali eram criados os melhores puros-sangues da Cavalaria. O lugar era muito visitado pelo general Figueiredo, um dia presidente desta República, mesmo preferindo o cheiro de cavalo ao de povo. Verdade! O Brasil teve um presidente que disso isso.

Entre 1963 e 1964, aquela fazenda foi comandada por um irmão dele, na época tenente-coronel, agora não me lembro se o Diogo ou o Euclides. Os três mais o escritor Guilherme Figueiredo eram filhos do legendário general Euclides Figueiredo, que lutou ao lado dos paulistas na Revolução de 32 contra a canalha getulista. Grande homem.

Os filhos do comandante estudavam no Culto à Ciência, naqueles tempos pré-redentora. Quidinho, herdeiro do nome do avô, na nossa classe, e João Baptista, um ou dois anos à frente. ‘Gentes finas’, logo fizeram muitos amigos na escola. Às vezes, alguns tinham o privilégio de conhecer a Remonta, brincar de caubói nos puros-sangues da fazenda, ver de perto como se criavam os cavalos que só víamos nos desfiles de Sete de Setembro.

De fato, naqueles tempos pré-redentora, os ânimos andavam acirrados. No colégio, um diretor do grêmio estudantil pregava o triunfo do comunismo, outro, do nazismo – os dois falando das duas faces da mesma moeda. Eis que o diretor que queria o comunismo, colega de classe do filho mais velho do comandante, aceita o convite para conhecer a “fazenda dos gorilas” – era assim que a esquerda chamava os militares de antanho. Foram.

Bem no dia em que estava lá o mais famoso cavaleiro dos tempos modernos do Brasil – e não era o Nelson Pessoa. Mas o futuro general-presidente, ainda, se bem me lembro, coronel, acompanhado de sua Dulce Guimarães de Castro Figueiredo, em visita ao irmão. E aos cavalos.

Ele pegou no pé do comunista. E chamou-o para um ‘particular’, um passeio longe dos demais, pela fazenda:

— Comunista, não é? Diga-me uma coisa, você sabe porque o cavalo faz cocô arredondado, como aquele ali? Vamos até o curral das cabras. Você sabe porque a cabra, o bode e os cabritos fazem cocô ‘piquinininho’ assim?

— Não, senhor coronel…

— Não?! Tá vendo? Você não entende nem de m(*) vai entender de comunismo, moleque!

Pregado no poste: “Se dirigir, não beba; se beber, não dirija; se não dirigir… beba!”

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