O “príncipe”

Era uma vez um reino, onde o monarca podia ser escolhido pelo voto direto dos súditos. Reinado de quatro anos, com direito a mais quatro. Quando um dos candidatos a rei caiu nas graças dos poderosos do lugar, começou o corre-corre. “Mas ele tem um filho desconhecido da população, nascido fora do casamento. Na boca do povo, será escandaloso, principalmente porque a mãe é uma estrela, conhecida da nobreza, do clero e do povo. Talvez também dos escravos!…”.

Conhecida mais ainda de garçons e maîtres, que não se esquecem de cenas de ciúmes em palco aberto, quando, garantem, até sopapos sobraram. Tempos de tórridas aventuras na côrte.

Os áulicos tinham motivos para tanto pavor. Em eleições passadas, um perdeu por causa de uma filha torta – se bem que o que ganhou, depois, bem depois, acabou reconhecendo que tem um. Políticos, sabe como é, mentem na entrada e na saída.

E o pai do filho torto ganhou a eleição. Imediatamente, os patrões da mãe arranjaram-lhe um castelo, para viver confortavelmente o ócio de rainha sem coroa, bem longe dali, em outro reino, com o filho, ora, pois, pois. A eminência parda da corte tratou de arrumar um pai postiço para o príncipe enjeitado — exigência da terra do exílio dourado: aceitava o garoto, desde que o gajo tivesse mãe e pai também. Esse “pai” é um biólogo que adora acarajé, mas mulheres, nem tanto. Portanto, de confiança absoluta, ó xente!

Ao fim do primeiro reinado, a mãe, cansada do desterro, avisou: “Voltarei. Meu filho manifesta desejo de viver na terra onde o pai de verdade é rei!”. A segunda eleição o manteve no trono. Para convencê-la a ficar longe de novo, ofereceram-lhe mundos, fundos e uma estada em outra plaga, esta uma monarquia autêntica, com direito a curtir a côrte local, ainda que numa terra estranha. Ali o rei reina, mas não governa. Como no reinado do pai torto, onde a eminência que manda não é parda, mas também não falha.

O reinado hoje vive de escândalos. “Com um escândalo atrás do outro, um a mais, um a menos, não fará diferença”, proclamou a rainha sem coroa. Suas malas estão prontas. A do príncipe também.

Pregado no poste: “Cobrador de ônibus virou catraca?”

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