O primeiro baile

E foi, também, o penúltimo. Tenho comichão só de ouvir essa palavra. A bailes eu só ia para trabalhar. Não, não fui garçom nem músico, muito menos porteiro. Nos tempos da gloriosa Rádio Cultura, seo Palhares me levava para “cobrir” os bailes de Carnaval na Fonte São Paulo. Meio na marra, mas eu ia. Com chefe, sabe como é: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Até que era divertido. Numa daquelas noites, tive de ir ao banheiro (repórter de rádio também faz isso). O sonoplasta (mais sono do que plasta) Edson Longo ouviu o repórter Cunha Mendes, que “cobria” o baile do Tênis, me chamar. Edson pegou o microfone e mandou ver, para explicar ao Cunha porque eu não estava em meu posto. Só que a cidade inteira também ouviu.
Quando digo que o primeiro baile foi o penúltimo, não estou blefando. No tempo da “guerra fria”, um grande jornal, americanófilo até a medula, noticiou assim a final de uma partida de xadrez entre um soviético e um americano, vencida pelo comunista: “O enxadrista norte-americano é vice-campeão; o russo chegou em penúltimo…”. Baile, mesmo, como manda o figurino, só fui a dois. Quase a três. Para a formatura no “Culto a Ciência”, cheguei até a fazer terno preto, também como manda o figurino, no alfaiate Sílvio Fiolo. Ficou chique, só vendo. Na noite fatídica, preferi ficar em casa. O Santos ia dar um baile melhor no Corinthians, com transmissão ao vivo pela televisão. Foi de sete a três. Até hoje a “madrinha” me xinga. Estela, pela bilhonésima vez, perdão.
Houve uma tentativa num daqueles bailinhos de escola, em que as meninas levavam salgadinhos e os meninos, ki-suco. Lembra? Foi na casa da filha de um empresário de café. Os garotos, para vencer a timidez, chegaram um pouco “altos”. A filha do empresário, para ser gentil, foi tirar um dos nossos colegas para dançar (suprema ousadia, já que a abordagem tinha de ser inversa). Ela até lisonjeou: “Você fica bonito sem óculos…”. Ele respondeu: “Você ainda não me viu pelado!”. Fomos expulsos, antes de o baile começar.
O primeiro e penúltimo baile foi em Sousas, no “clubinho” da Merck, Sharp & Dohme (é assim que se escreve isso, Lemão?). Antes, me mandaram beber um pouco, para me animar. No salão, serviam “samba”, mistura de pinga com Coca-Cola, e gim-tônica. Foi uma tragédia. Começou quando uma jovem deu “tábua” num rapaz. Um amigo dele, para se vingar, tirou-a para dançar e, no meio da música, estrilou, só para humilhar a moça: “Você fez pum! Isso é falta de educação! Você fez pum!”. Ela teve de ir embora pra casa. Acho que nunca mais deu “tábua” em ninguém. Tenho certeza de que tirei uma menina para dançar. Só me lembro de ela ter dito: “Eu não estou acertando o passo, acho melhor a gente ir mais devagar…”. Depois, parece que uma chuva de gim, Coca-Cola, pinga e água tônica esguichava da minha boca. Acordei num banco do largo da igreja, com o dia clareando.
O último baile foi em Marília. Noite havaiana. Melancias, abacaxis, jacas, bananas pra todo lado, em volta da piscina. Nunca consegui dançar. Esse negócio de dois pra lá, três pra num sei onde; o rapaz é quem conduz a dama. Fico perdido. Até que apareceu uma dama gentil, disposta a me conduzir. Está me conduzindo até hoje. Graças a Deus!.
Pregado no poste: “Mexa-se! Dia 21 de novembro, 125 anos do Culto à Ciência”

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