O lado ignorante

Campinas e os campineiros não eram assim. Mas nossa terra e nossa gente estão contaminadas pelo Brasil, principalmente, e pelo mundo. Bestas humanas que passaram a viver aqui já deixam cair suas máscaras e começam a aparecer. As ofensas à libanesa Nazha Ebrahim Darwich, na fila de um banco, foram protagonizadas por bandidos fantasiados de gente, que compõem a população do lado ignorante da cidade. Lado que Campinas não tinha.

Tudo porque ela é muçulmana e cobria a cabeça com um lenço típico da sua terra, sua gente e sua religião. Bonito, até. Na escola, a filha Nora, criança de oito anos, também foi agredida, por seus traços árabes – lindos. Deve ter sido duro para Nazha ouvir da filha: “Mãe, porque eles dizem que nós somos maus, pessoas ruins e que matamos os outros?” Duro para a mãe, mais vergonhoso para nós. Com que cara vamos olhar para Nazha, agora? Será que ela vai pensar que todos os campineiros são iguais aos desclassificados que passaram a morar aqui?

Ela escolheu nossa terra para viver há um ano e três meses, depois de nos visitar várias vezes. A pesar de tudo, decidiu que não vai nos abandonar, enriquecendo Campinas com sua presença e contribuindo para a nossa cultura, com a cultura milenar de seu povo. Indefesa diante de bandidos, tudo o que ela pode fazer é, como boa professora, ensinar. Para nossa vergonha maior, ensinar o óbvio: “Terrorismo não é uma opção religiosa dos muçulmanos. Em lugar algum do mundo se usa a religião de alguém para qualificá-lo, caso cometa um crime.” De fato, Nazha, Boletim de Ocorrência não traz a religião de ninguém. Mas devia, no caso de identificarem seus agressores, especificar: “Fulano de Tal, preconceituoso, racista.”. Qualquer coisa assim.

Quem agrediu você, Nazha, deve ser aquele tipo de gente para quem todo cigano é ladrão; todo judeu matou Jesus Cristo; todo alemão é nazista; todo padre participou da Inquisição; todo pontepretano é anti-bugrino e vice versa. E pode crer, tão preconceituosos, que devem ser aqueles tipinhos e tipinhas que reagem quando ouvem que “campineiro é bicha”.

Aquela santa que mora aqui em casa e eu mandamos um beijo de solidariedade pra você.

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