O filho da dona Chiquinha

Nossa, como a gente gostava deles! Todo mundo gostava. Formavam uma das famílias mais queridas do bairro. Seo Euclides, dona Chiquinha, a Cleufe (doce Cleufe), o Euclides e o José Roberto. Eram admirados, respeitados. Quem os conheceu pode viver mil anos e se esquecer de tudo, menos do sorriso do seo Euclides e da simpatia e da voz gostosa e pausada da dona Chiquinha. Ninguém passava na frente daquela casa da Rua José Paulino, que tinha o jardim mais bonito, e dizia só bom dia ou boa tarde. Um “dedo de prosa” com eles era uma obrigação. Fazia bem para todos conversar com eles.

A vida levou cada um para um lado. A Cleufe foi morar em Rondonópolis, o Euclides, em Casa Branca, e o José Roberto, em Marília. Justamente o José Roberto, com quem eu tinha menos contato por causa da diferença de idade, é quem me mostrou os trilhos: “Não abandone o jornalismo, mas em vez de curso de Comunicações, faça História.”. Fiz.

Mas as melhores reportagens que fiz, exigindo conhecimentos históricos, tiveram a participação e a orientação desse mestre: os 250 anos do café no Brasil; o centenário da abolição da escravatura; a vida de Armando de Salles Oliveira; os 70 e os 80 anos da imigração japonesa; o centenário da chegada da Companhia Paulista a Campinas… Uma conversa com ele ensinava mais do que um curso de História. O José Roberto do Amaral Lapa não sabia apenas ensinar. Tinha o dom de nos fazer gostar do que estávamos aprendendo – o talento sagrado que Deus dá aos professores.

Seu amor a Campinas nos legou a verdadeira “carteira de identidade” desta nossa terra. Nenhum campineiro pode passar a vida sem conhecer sua obra. Mestre Lapa faz nossa gente amar esta cidade porque nos conta, com sua riqueza peculiar e inteligência rara, quem é esta gente especial, do escravo ao barão, do sem-teto ao dono da mansão, que fez de Campinas um ponto luminoso nas terras do Brasil. Nossos heróis anônimos estavam escondidos. Ele os deu à luz.

Pregado no poste: “Agora, Deus vai abrir os arquivos do Céu.”

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