O filho do seo Euclides

O professor Amaral Lapa adivinhava Campinas. Caminhava de mãos dadas com ela, sabendo tudo o que ia acontecer no futuro de sua amada. Previa todos os caminhos. Nunca tantos me telefonaram para comunicar um acontecimento triste como esse da partida do “pai” da nossa história.

Três de seus ex-alunos no Colégio Ateneu Paulista, todos seus vizinhos, ligaram para contar a mesa história, para eles a prova do amor desse visionário por Campinas e pelos campineiros. Os três ainda eram adolescentes e saíam com o professor Lapa para a escola, às 6h40 da manhã. Outro mestre, o professor de Matemática João Batista Amade, também morador perto dali, juntava-se a eles na esquina da Rua Delfino Cintra com a Avenida Orosimbo Maia, ainda com uma pista só asfaltada. Imagine a ventura daqueles três moleques: iam para o Ateneu em companhia de verdadeiros anjos da guarda do ensino.

O grupo passava pelo Centro de Saúde; onde está a Maternidade havia o circo Sarrasani; cruzavam a Francisco Glicério; atravessavam à ponte de madeira sobre a valeta que divide a Orosimbo Maia e subiam a Rua Sacramento, a caminho do Ateneu.  Ali ficava a entrada das meninas; a dos alunos, na Rua 14 de Dezembro. Não muito longe, o Grupo Escolar Arthur Segurado, onde o professor Lapa fez o primário e, com os colegas de turma, celebrou no ano passado os 60 anos de formatura.

No caminho, ele observou: “Um dia, a Orosimbo será toda asfaltada e alargada; o Ateneu perderá o campo de futebol. Vejam aquelas jamantas da Leco, elas já não cabem na avenida. A Glicério também será alargada, chegando perto do cemitério dos escravos do Barão de Itapura. É a cidade crescendo em volta do seu berço, a Matriz do Carmo.” . E assim se fez. Voltando do futuro para o presente, alertou o Luís Carlos Rossi, seu vizinho de fundos na Delfino Cintra: “Amanhã, teremos prova de História. Eu não vou te dar zero só porque você rouba as peras do quintal do meu pai. Ele disse para eu relevar, porque você é criança. Se você levar zero, é porque não estudou. Certo?”.

Pregado no poste: “Vivendo e ensinando.”

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