Nós, reféns

Chegou um “Correio Popular” da semana retrasada com a história de uma família que ficou refém por algumas horas de um grupo de bandidos, se não me engano num bairro chamado Vila Nogueira, aí em Campinas. (Nada contra essa vila nem Nogueira algum; é que eu deixei a cidade há mais de um quarto de século e as vilas daquele tempo eram poucas: a Industrial, a Costa e Silva, a 31 de Março, a Carlito, a Rialto, e a Brandina; além da Rica e da Nova, embora a cidade jamais tivesse as vilas Pobre ou Velha.).

Ser refém é vocação do brasileiro. Nascemos reféns de Portugal, depois da Espanha, da Inglaterra, da França e, agora, dos Estados Unidos. Temos a maior bacia hidrográfica do mundo, mas importamos eletricidade da Argentina, da Venezuela e do Paraguai, além do “uísque”. E precisamos agüentar os gases bolivianos, que não cheiram nem fedem, sem falar do petróleo, que fede e mata. Estão aqui as florestas mis produtivas de pinus e de eucaliptos, mas parte do papel higiênico vem de fora. É triste, mas dependemos dos outros mesmo para ir ao banheiro. Até os rolemãs dos carrinhos da nossa infância eram importados. Há centenas de milhões de bois, porém, milhões de famintos. Pagamos cada vez mais impostos e temos cada vez menos. Temos o melhor futebol do mundo, mas para fazer um campeonato, somos reféns da Fifa.

Portanto, às vezes, ser refém de bandidos pode ser apenas uma questão de nomenclatura e do grau da violência. Alguns agem às claras, de arma em punho, à luz do dia e nem sempre escondem o rosto. Devem ser os mais perigosos apenas na aparência. Mas existem os que fazem de refém uma nação inteira, pela vida a fora, vestidos de terno, gravata, colarinho branco – alguns de botinas amarelas e com mandato –, becas ou togas, batinas ou uniformes de clubes, de mãos abanando ou carregando bandeiras. Todos falando a nossa língua, mas a soldo de quem fala línguas de fora.

Pregado no poste: “A Petrobrás nos envenena, mata e quando paga a multa é com o nosso dinheiro.”

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