O ‘MIX’ de ontem

Tudo o que acontecia no começo do século continua acontecendo. A diferença é que se você quiser saber o que ocorre por aí, tem de sair à rua. Porque o que acontece hoje, igual ao que sucedia nos tempos de antanho, não é mais notícia de jornal. O jornalista Rogério Verzignasse deu um passeio pelo Correio Popular no mês de sua fundação, setembro de 1927, e garimpou notícias que, na época, mereciam registro nas páginas — e com destaque.

Viagem deliciosa essa: mostra uma mudança brutal no que antes era de grande interesse e hoje ninguém dá bola. Por exemplo: você daria atenção a uma notícia de um garoto de 15 anos que machucou o lábio superior (olhe o detalhe!) depois de cair de um “lageado” na Rua Culto à Ciência? Só para completar, a vítima foi Hugo Duarte Arantes, de 15 anos, morador no bairro do Botafogo.

Mais esta: uma carroça atropelou um português e o jornal noticiou. Duvida? Está lá: “Na rua Doutor Quirino, ontem pela manhã, o português Antônio Ventura, de 25 anos de idade, foi apanhado por uma carroça da padaria Minerva, recebendo ferimentos no quadril. A polícia registrou o fato.” (Naquele tempo, chamavam de “quadril”…).

Quando morria alguém – importante ou não – o repórter era obrigado a registrar o nome de cada um dos presentes ao velório e ao enterro. E essa notícia saía na coluna social, chamada “Registro da Sociedade”, o “MIX”, do Correio de 1927. O que você acha Paula Pilla? Sabe quem escrevia aquela coluna? O grande César Ladeira, marido da atriz Renata Fronzi, depois locutor oficial da Revolução de 32, na Rádio Record, consagrando-se mais tarde na legendária Rádio Nacional do Rio de Janeiro, como o melhor locutor do Brasil. Ele assinava a coluna com o pseudônimo Noél Villaça.

Não é só: aquele “MIX” relacionava o nome de todos as pessoas hospedadas nos hotéis de Campinas e a lista de todos os aniversariantes e de todos os casamentos. Notícia de noivado (atenção para o nome da noiva, Paula): “O senhor Luiz Gonzaga de Lima participou-nos de haver contratado seu casamento com a senhorinha Clonirda Angelim.”

Gente da “alta” ou não, se fosse internado em algum hospital, o velho “MIX” do César Ladeira noticiava: “Encontra-se enferma no Circolo Italiani Uniti a senhora Carmem da Silveira Pinto de Moura.”

A Regina Santo Mauro, que hoje cuida do noticiário agropecuário, ficaria louca: José Júlio Ferreira Baião, que assinava a “Secção Agrícola”, em 1927, preparou um artigo de página inteira só para falar das “moléstias e inimigos das jabuticabeiras”. Havia tempo para essa leitura.

O nosso Edu Cerioni, editor de Esportes, colocaria pra correr se o repórter começasse a notícia de um jogo entre Santos e Palmeiras deste jeito: “O Palestra possui um ótimo conjunto, perfeitamente organizado em magníficas condições. O Santos tem um quinteto atacante devastador.”…

Briga de inquilino com o dono da casa também era notícia importante. Hoje, não haveria jornal suficiente para esse assunto. Se um carro batesse numa carroça, o motorista era multado em 50 mil réis. Afinal, naqueles bons tempos, as carroças tinham preferência.

Agora, esta, se acontecesse hoje, seria notícia, sem dúvida: “A polícia multou ontem em 20 mil réis o proprietário do automóvel particular nº 705, por não buzinar.”

Pregado no poste: “Fon, fon!”

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