Não são daqui

Campineiros continuam orgulhosos – daqueles que não cumprimentam ninguém na rua, para fingir que a cidade é tão grande que não se conhecem. Nem pelo nome. Ou daqueles que, ao serem apresentados a alguém, vão logo querendo saber o sobrenome ou se é de Campinas – se não for, desdenham (“É de fora…”). Requinte era o de Zezé de 32 ao preencher um documento: “Brasileira, o senhor põe por sua conta; eu sou é Campineira, com letra maiúscula, viu!?). Bobagem, afinal o que seria do mundo não fosse Campinas?

Mas há momentos em que a gente se assusta: que planeta é este? Campinas não é.

Domingo, jogando conversa fora na mesinha de café de um desses shoppings da vida, fiquei observando as pessoas; depois, passei a prestar a atenção nos sobrenomes das pessoas achadas e perdidas, chamadas pelo alto-falante do lugar. Os “Marcelos” e as “Alines” ganham de 10 X 0. Acredite: são mais do que os “Silvas”, “Santos” e “Souzas”. Mas já pululam os “Maicons” (de onde os pais tiraram esse nome, meu Deus!? Dizem que é lindo!).

Uma vez, alguém disse que se uma pessoa morta há cinqüent’anos voltasse de repente à Terra, morreria de novo – na hora. A começar pelo impacto dos rabos-de-cavalo e brinquinhos nos rapazes e a absoluta falta de roupa nas moçoilas. Este recém-ressuscitado chamaria agentes da Delegacia de Costumes e de Vadiagem para mandar quase todos os freqüentadores do shopping para o xadrez. E teria outro troço, ao descobrir que essas delegacias não existem mais. A nova Constituição garante ao cidadão ser vagabundo, até trocar de sexo e ninguém tem nada com isso. Concordo. Mas não precisaria garantir a políticos e poderosos o direito de roubar o bem público, matar o próximo e ser desigual perante a lei.

Voltando à cafeteria, um horror. A menina, dos seus quinze anos, conseguiu comer uma coxinha sem mastigar uma vez sequer. O namorado comeu de boca aberta. Ela tomou um suco de qualquer coisa vermelha e limpou a boca na manga do que um dia foi blusa. Ele a beijou na mesma boca e quando foi limpar a dele, viu que sua camisa não tinha mangas. Foi no braço, mesmo.

Quem falava mais baixo, gritava. Bonita algazarra da galera, não fosse tão recheada de palavrões. Curioso: eles e elas não usam mais passar os braços pela cintura dos respectivos parceiros. As mãos descobriram que, agora, o furo tem de ser mais embaixo, num lugar que mudou de nome e que elas e eles chamam de cofrinho. Tomara que não seja tão encardido como as calcinhas e cuecas. “Calcinhas e cuecas!? Coisa mais antiga!”

Pregado no poste: “Socorro, como faço para anular o voto!?”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *