Mas o cachorro…

Pronto! Cachorro outra vez! Eles me perseguem. Ainda acabo fabricante de ração, vacina contra ‘réiva’, cólera, remédio pra matar pulga, casinha, xampu, dono de banho e tosa, veterinário… Esta história homenageia o doutor Sbrágia, veterinário mais prestigiado da história de Campinas. Ela me foi passada pela filha de um dos protagonistas e aconteceu há meio século em Uberaba, quando seu bispo era dom Alexandre Gonçalves do Amaral.

Eram três amigos naquela Uberaba de 1956. O primeiro, Joel Andrade Lóes, grande colega, editor do suplemento de Turismo do ‘Estadão’ que, enquanto viveu e conosco conviveu, jamais falou nada. O segundo, Jorge Zaidan, tio do Rubens Zaidan, jornalista, um dos melhores locutores da história do rádio e da televisão e pai da moça que me relatou o ocorrido. E o terceiro, o celebérrimo doutor Adib Jatene, o homem que mais salva vidas depois de Jesus Cristo, tamanha sua dedicação à humanidade. Naquele tempo, ele fazia residência médica num hospital da cidade.

Jorge, Joel e Jatene tinham outro amigo, de quem não se desgrudavam, mais guru do que amigo: o magnífico Chico Xavier.

Foi aí que o jovem doutor recém-formado inventou de transplantar o coração de um cachorro em outro. Façanha impossível de se realizar no hospital. Chico Veludo, dono de uma oficina mecânica, foi chamado para nela improvisar a sala cirúrgica. Emprestou o estabelecimento, mas fugiu: “Esses três têm parte ‘co’ demo, sô!”. Cachorros amarrados e anestesiados junto à morsa, vai começar o ato cirúrgico. Jorge, gerente da rádio, e Joel, locutor, mas sempre jornalistas, passam a mão no telefone, ligam para a estação, o técnico abre a linha e começa a transmissão do primeiro transplante de coração do Brasil, ainda que de cachorro.

Matriarcas da tradicional família mineira ouvem e se horrorizam. Correm se queixar ao bispo. Ele invade a rádio, interrompe a reportagem e ameaça mover Deus e o diabo para demitir Joel e Jorge, se aquele pecado não sair do ar. E anuncia que o médico será excomungado. A moça jura que foi. Há controvérsias. Chico Xavier, um espírita naquela Uberaba ultra-católica, protege os da terra e aconselha Jatene a tentar a vida em São Paulo. Santa presença de espírito, Chico! O mundo agradece!

O cachorro sobreviveu.

Pregado no poste: “Começa hoje o ano de 2006”

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