Lendo e aprendendo a contar

“O ensino da leitura corrente e expressiva nas nossas escolas primárias ainda deixa muito a desejar, conquanto inúmeros sejam os livros bons, que se destinam a esse fim e que formam a nossa biblioteca escolar.

            O defeito provém da falta de interpretação dos trechos lidos, de deixar o professor de perscrutar se o aluno compreendeu ou não o que leu, se se apoderou do sentido e o pôde reproduzir, não com as palavras lidas, que isso seria decorar, mas na sua linguagem infantil, com os termos, embora incorretos, que está habituado a empregar. Conhecemos letrados que, dos quais se pode dizer que, em rigor, não sabem ler, pois saber ler não consiste em reproduzir simplesmente pela fala o que está escrito, mas fazê-lo com expressão, sentimento e alma, demonstrando assim a perfeita compreensão.

 O segredo do ensino está em excitar a curiosidade e fazer agir a inteligência infantil sempre e por todos os modos. Lido qualquer dos pequenos contos deste livro, deve o professor fazer o aluno repetir a lição, na própria linguagem da infância, reproduzindo, primeiro, período por período, à proporção que os for lendo e, depois, a historieta inteira.”

Esse ensinamento está na abertura de uma obra de arte da pedagogia brasileira, ‘Segundo Livro de Leitura para a Infância’, do mestre Thomaz Galhardo. Ele morreu em 1904. Sua contribuição para o ensino, como se vê, é perene. Tive a ventura de estudar em sua ‘Cartilha da Infância’ e, falando nela, dia desses, um certo senhor Flávio, de Campinas, me mandou este presente, o segundo livro, que em 1923 já estava na 42ª edição! (Nem Paulo Coelho…). Outra prova da perenidade. Na rede mundial, descobri a existência da “Escola Estadual Thomaz Galhardo”, em São Paulo. E sua diretora, Maria Tereza Rojo Barbosa, muito gentil, enviou pequena biografia desse filho de Ubatuba, um  grande mestre de gerações e gerações.

O que Thomaz chama humildemente de “historietas” são quarenta lições em textos curtos, com mensagens de moral, boa conduta, bem-querer, higiene, generosidade, respeito, amor ao próximo e aos animais, dedicação aos estudos e ao trabalho, honestidade, honradez… Todas passadas num mundo completamente diverso deste dos jovens de agora. Tempo de tecnologia nenhuma, mas mostrando que a realidade – e a exigência e as necessidades dos jovens — é sempre a mesma. E as carências também.

Pregado no poste: “O que a senhora está lendo, dona Izalene?”

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