Lição de casa

Não posso contar o santo nem o cenário. Só o milagre. Se não, vão descobrir que tudo aconteceu lá no colégio Culto à Ciência, com a adorável professora de Francês Lícia Pettine (saudade…) e o pai de um aluno. Foi gozado. Doutor Telêmaco saiu para rir lá fora, no pátio das meninas. Dona Celina Duarte virou-se para a parede, fixa naquele quadrinho onde estava escrita a palavra Geografia — em grego. Dona Lúcia, a outra orientadora educacional, esquivou-se atrás do retroprojetor e o professor Sílvio, tão magrinho quanto querido, conseguiu sumir atrás do mastro da bandeira paulista.

A reunião dos professores com os pais dos estudantes do primeiro ano do ginásio, hoje quinta série, transcorria na sala de Geografia, altar sagrado do mestre Hilton Federici, gentilmente cedida. (Ai se depois ele encontrasse um cisco de papel de bala no chão. Aí vocês iam ver o que eram pai, mãe, professor e todo mundo varrendo a sala… Ele não perdoava nem bugrino porcalhão… Mas existe bugrino porcalhão?)

A reunião começou com uma reclamação considerada justa, depois de acalorados debates. A mãe de um craque do basquete (meu Deus, onde ele está?) disse que o desempenho do menino — Sérgio Ewbank — na escola estava prejudicado pela quantidade de viagens e de jogos a que ele era convocado para defender o time do colégio. E olha que naquele time do colégio, Oscar, o “mão santa”, seria titular absoluto na função de carregador do saco de bolas para o professor Stucchi. Nada além disso. Jogar? No lugar de quem?

Foi quando o pai de um aluno ergueu o braço para falar com “a professora de Francês”. Dona Lícia, delicadeza de um bibelô japonês, rosto levemente marcado por rouge como uma gueixa, disse baixinho lá na frente: “Pois não, meu senhor.”. E ele indignou-se: “Não consigo entender porque meu filho não tira mais do que cinco nas provas com a senhora. O semestre está no fim ele só tira cinco!”. A mestra esclareceu: “Cinco, com muita boa vontade; mas ele está melhorando. Como as duas aulas de Francês são sempre as últimas, eu fico com ele na sala, refazendo a lição que ele traz de casa, muito malfeitas, há até borrões de tinta no caderno e com erros de Português em algumas palavras que ele não costuma cometer aqui na classe”. O homem ficou em pé:

— Eu não acho certo que a senhora fale assim das lições do meu filho, principalmente aqui e na frente de todo mundo, professora! Afinal de contas, minha senhora, quem faz as lições do meu filho sou eu!

Pregado no poste: “Escreveu, não leu…”

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