Lá vem o ‘seo’ China…

Aquilo, sim, era um ponto de perdição. Verdadeiro lupanar gastronômico. Ficava na General Osório quase esquina da Glicério, ali, meio escondido entre a Clipper e o Bar Rosário, se é que algo pode se esconder em pleno Largo do Rosário. Bem nas barbas da Justiça do Palácio. O aroma que emanava do lugar subia e ganhava o espaço, inebriando todos que passavam pela rua ou trabalhavam nos prédios vizinhos. Uma loucura.

A sessão naquele antro de prazer começava sempre pelas cinco da tarde e atraía motoristas e cobradores de ônibus, jornalistas, jornaleiros, prostitutas, advogados, juízes, promotores, bedéis, cartorários, o escrivão maior e o menor, padres, vigários, vigaristas, pastores, vagabundos, bundas e bandas. Paravam pra ver, cheirar e… Comer, comer! Todos pecando em silêncio, olhos revirados, bocas lambuzadas, sob o riso cúmplice e refestelado da dona da casa, autêntica cafetina de quitutes.

Não fosse o delírio do sabor, que deixava a todos irracionais, a última reunião de pauta do dia da sucursal do Estadão seria feita ali. Mas era impossível raciocinar, decidir e criar naquele solene bacanal de gourmands. Roberto Godoy e eu ainda trazemos alguns quilos de excesso adquiridos naquele balcão, digo, altar, onde massas de pastéis eram consagradas ao corpo do palmito, da carne, do queijo e do camarão.

Os sacerdotes daquele templo eram chineses, fugidos do inferno de Mato Tse Tung. Não sei se ainda estão ali, mas minha mulher desconfia que o lugar foi profanado pela presença de uma dessas lanchonetes que fazem sanduíches de plástico para enganar trouxa. Trouxas, mesmo, porque o Giovanetti e o Éden Bar ficam perto e não enganam ninguém.

Como o comunismo persiste na China, chineses continuam fugindo. Sorte nossa, azar da China. É o que conta o repórter Luka Moreira, aqui no Correio: “Chineses ampliam domínios no Centro”. Pelo desabafo da chinesinha Patrícia Tam, a “lei do ventre-livre” ainda não existe por lá: “Seus pais resolveram vir para o Brasil porque queriam ter mais filhos. Segundo ela, muitos chineses residentes em Campinas vieram para cá pelo mesmo motivo”. Até a vida o comunismo proíbe na China.

A pastelaria da Patrícia, chamada, a propósito, de “Dragão de Ouro”, fica, de verdade, atrás do Palácio da Justiça, na José Paulino com Campos Salles, ali, onde havia 30 anos, existia a lanchonete “Galo de Ouro”, do Renato Camarinha. Era outro jardim de delícias, que homenageava Éder Jofre, na época, campeão mundial de boxe. Jofrinho veio para a inauguração, se a memória não trai.

Mas assim como os chineses, o Luka Moreira veio de fora. É maranhense, há pouco em Campinas. Fugiu do inferno do Sarney e, agora, sofre no inferno do Chico… Está aprendendo Campinas aos poucos. Por isso, quando li sua reportagem sobre a invasão amarela no centro da cidade, levei um susto: “Aberta na semana passada, a Pastelaria Dragão de Ouro fica na esquina da Avenida Francisco Glicério com a Rua José Paulino”. (?!?!) Uai, no meu tempo, a José Paulino e a Glicério jamais se encontravam; eram paralelas. Ou a rua e a avenida foram se encontrar na China?

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