Negócios na China

Tenho um amigo holandês, não aquele holandês que “pagou pelo que não fez”. Mas numa missão à China, acabou “pagando pelo que fez”. E o que ele fez? Na empresa em que ele trabalha, apareceu uma oportunidade para ir à China cuidar de interesses da firma e ele, aventureiro, nem se preocupou em saber por que aquela vaga estava aberta há tanto tempo e ninguém queria saber de ocupá-la. Caiu na armadilha — uma espécie de trote de executivo. Esse amigo morou em Campinas, entre a infância e a adolescência, pelos lados do Castelo. Foi quando o conheci. Só fui revê-lo agora, traumatizado com a experiência, envergonhado de pertencer à raça humana.

Quando definiu a viagem, a primeira providência foi enviarem à Holanda o vice-presidente da estatal chinesa que receberia o holandês. Negócio fechado, partiram. O vice viajou um mês antes. Quando meu amigo chegou à China, foi direto à empresa e levou um susto: o vice-presidente era, agora, o porteiro da estatal. O que aconteceu?, espantou-se. “O partido me rebaixou, o vice é outro”.

De verdade, mesmo, a indignação começou no caminho da cidade até a estatal. Um homem agonizava, estendido na estrada. O carro da empresa desviou-se, dezenas de pessoas caminhavam pelo acostamento e ninguém acudia a vítima, talvez de atropelamento. Meu amigo quis saber porque e ouviu do motorista: “Isso é problema da polícia; não se preocupe, no máximo em 24 horas ela chega…” (!) O motorista fez outro comentário, em tom de alerta: “Você veio sozinho, para cá? Não trouxe a esposa? Você é solteiro? Então, não tente namorar nenhuma chinesa. Dá cadeia”.

A diretoria levou meu amigo holandês para almoçar na cidade. Aperitivo: o sangue da cobra escolhida e morta na hora, na porta do restaurante, cuja carne foi servida logo depois. Pior foi o prato principal. Em cada canto da mesa, amarrado a um cilindro, um macaquinho ainda bebê, sedado. Só a cabeça perto do prato. O garçom dá uma martelada no crânio do bichinho e entrega uma colher a cada freguês. Todos comem o miolo dos macaquinhos aos pedaços, com molho de sangue. Tudo cru, cruel. E ainda justificam: “Se servirem o macaco morto, o sangue coagula e o sabor não é agradável”. Recusar ou ficar indignado é uma ofensa gravíssima.

Com medo de perder o negócio que sua empresa tentava havia dez anos, meu amigo aceitou tudo, fingindo bom-grado. Tem a alma doente até hoje.

O requinte da estupidez com o ser humano, esse holandês viu acontecer ainda naquele dia em que encontrou o vice-presidente da estatal rebaixado a porteiro, “por ordem do partido”. Não estranhei. Aqui em Campinas, um prefeito, para se vingar de um funcionário de carreira, já idoso, culto e honesto, transferiu-o do gabinete para o almoxarifado da limpeza pública, porque não quis filiar-se ao partido.

Como eu dizia, naquela portaria, ele viu uma funcionária, aos prantos, sendo empurrada, aos trancos, para dentro de um carro blindado. Talvez para que ninguém visse seu sofrimento nem ouvisse seus apelos.

— O que ela fez?

— Ficou grávida. Já tem um filho, não pode ter outro! Foi levada para abortar.

Que paraíso, não?

 

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