Hilda ‘Furaquinha’

Seu esconderijo era uma quase caverna, entre o Mercadão e o extinto e demolido Grupo Escolar “Corrêa de Mello”, perto da loja “Mercado do Sapato”, da Vescan e da igreja Luterana. Lembra-se do cenário, agora? Isso! Entre a Álvares Machado e a paralela da esquerda — será que é a Ernesto Kuhlmann? Deve ser. Bem ali, onde a mãe do Carlos Gomes, filho de “Maneco Músico”, morreu assassinada por coisas do coração.

Atormentava os motoristas de táxi do ponto que ficava nos fundos da escola – fone 3317. Azucrinava a vida dos camelôs da Ernesto Kuhlmann; banhava-se no lavador de carros do posto ao lado do “Garcia, o rei das molas”; filava um resto de comida no Pachola; entrava, sem vergonha de errar, no banheiro público e se enrolava em trapos que sobravam dos rolos de tecidos deixados na rua pelo pessoal das “Casas Pernambucanas” – filial, não a da Treze de Maio.

Às vezes, pedia, e ganhava, um pedaço de queijo do “seo” Marchesini, homem de um coração maior do que o mundo. Nunca furtava, sempre pedia. Uma laranja na banca do Juca, uma pêra, na da dona Maria, uma bolacha no armazém do Salim Murtada. No frio, contentava-se com a sobra da merenda dos alunos do grupo e da meninada do parque infantil.

As professoras do parque, Mazé, Teresinha, Dirce, Edith, Jandira e Lindomar, faziam de um tudo para atraí-la, levá-la a um abrigo, colocá-la na escola. Nada. Não ia além do portão. Nem aceitava participar das brincadeiras com a molecada.

Não passava dos 11 anos, a Hilda. Esperta, sem ser malandra, simpática, meiga, brincalhona, provocava todo mundo. A sobrancelha esquerda incrivelmente arqueada e o rodamoinho, que teimava em lhe desarrumar a franja, marcavam-lhe a feição. Não tinha nada, não tinha ninguém. “O mundo é meu”, respondia, quando tentavam vasculhar sua vida. “Vim de Salto”, dizia num dia. “Minha vó me largou na estação e sumiu no trem de Baretos”, contava em outro. “Sou daqui mesmo, porque gosto daqui”, despistava.

Filha de quem? Ninguém sabia. Só ela; e ela escondia. Era criança que teve algum trato, até ser deixada na vida, sem sobrenome nem destino. Seria Hilda, mesmo, seu nome? Esse ela sempre repetia. Nunca mais a vi. Desde que deixei a Escola Alemã e fui para o “Culto à Ciência”, o Mercadão saiu do meu caminho para a cidade. Muitos e muitos anos depois, uma amiga, morrendo de “curiosidade”, me fez levá-la para conhecer, “rapidinho”, o Jardim Itatinga. Por um momento, jurei que a garota de sobrancelha em arco e franja rebelde, fazendo hora no muro de uma das casas, fosse ela. Estava bonita. Não tive coragem de perguntar. Bisbilhotar, pra quê?

Agora, lendo o Roberto Drummond contar como nasceu sua ‘Hilda Furacão’, que ele jura nunca ter existido, no meio da leitura, veio um clarão na memória. Ano passado, numa cidade do interior de Mato Grosso do Sul, pedi licença à moça do caixa para pagar com cheque de Ribeirão Preto uma pequena compra numa loja de artesanato. “Vou consultar a patroa e volto já… Dona Hilda, o cheque desse moço é de São Paulo, Ribeirão Preto. Pode aceitar?”. Quando aquela sobrancelha arqueada me fitou atrás da franja teimosa, sorri e guardei o passado pra mim.

 

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