Este solo é mãe gentil

O verdadeiro agricultor brasileiro é um homem marcado. Não adianta ele cuidar da terra com carinho de sol a sol, preservá-la, plantar mudas e sementes, colher alimentos, gerar empregos, ser esbulhado pelo governo, explorado pelas multinacionais do adubo, do defensivo, das máquinas, pelos bancos e ainda ver seu chão e sua casa invadidos.

A gente da cidade vê esse homem ora como um matuto, ora como um folgado (“gigolô da terra”, dizem às vezes), e quase sempre como um explorador. A gente da cidade que pensa assim pensa, também, que frango nasce em balcão refrigerado do supermercado; que ovo sai de uma fábrica; que leite já vem em caixinha; que arroz e feijão dão em sacos plásticos; que cebola já vem em réstia ou que o café sai da torneira da máquina do botequim. A ignorância é a mãe dos que não pensam. No Brasil, infelizmente, essa é a mãe com maior número de filhos, principalmente no poder. Todos bastardos, alvos fáceis de ideologias oportunistas, todos também filhos deste solo, mãe gentil.

Poucos param para pensar quanto trabalho há por trás de um simples prato de arroz com feijão e quanto o produtor daquele arroz e daquele feijão ficou devendo no banco, angustiado — tudo para não deixar faltar comida na cidade. Mas se ele, exaurido pelas injustiças, não conseguir mais produzir, vão acusá-lo de dono de terra improdutiva.

Se ele parar para pensar no que falam pelas ruas da cidade de sua criação, de suas lavouras ou de sua querência e lugar de trabalho, é capaz de morrer de desgosto. Talvez o agricultor, por grandeza de espírito ou espírito de renúncia, nunca tenha pensado nisso, mas a maior parte das palavras que o povo usa para ofender alguém também vem do campo. Quer ouvir?

Vá plantar batatas! Você é um banana, seu burro!

Aquela mulher é uma galinha, uma égua, uma vaca, isso sim!

Pensa que meu dinheiro é capim? Não comprei isso a preço de banana!

Sua besta, tinha de seguir aquela perua como vaca de presépio?

         Isso é um abacaxi; veja só o pepino que você me arrumou!
         Seu porco! Cabra da peste!

Agora que ele foi em cana, vou viver pastando, só na base do agrião

Minha neta pode ser uma mula empacada, mas não é arroz de festa; já chega o que a Luzia perdeu atrás da horta. Agora, dá mais do que chuchu na cerca.

Não se preocupe com sua filha, aquele rapaz é um boi sonso. “Boi sonso? Pois é o boi sonso que vara a cerca, comadre!”.

Aquele pamonha é o laranja da história. Chegou aqui vermelho como um pimentão. Escapou na horinha em que iam usá-lo como boi de piranha.

Esse jogador é um goiaba; pipocou na hora do pênalti. Quando foi expulso, ficou com cara de mamão macho e foi pro vestiário chorando feito um bezerro desmamado.

Ele caiu como um pato.

Cuidado! Tem boi na linha, isso ainda vai dar bode! Não falei? Quem mandou ser abelhudo?

Não se preocupe. Aquele cara é café pequeno, verdadeiro galinha morta. Não vale um figo podre, menos do que “deistão” de mel coado.

Quer saber de uma coisa? Vai catar coquinho!

Quer aparecer? Pendure uma melancia no pescoço.

Essa aí é manga chupada, pode crer.

Nesse time só tem cabeça de bagre, ninguém ali é cobra.

Mas você é um jacu, mesmo. Tem cérebro de minhoca ou água de coco na cabeça? Só diz asneira.

mexericando? Mando-lhe um nabo que você vai ver só!

Você é um cavalo! Sai daqui! Vai caçar sapo com bodoque.

Pregado no poste: “Sapo de fora não chia”

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