Degenerou

Um aluno esqueceu-se da gravata no bolso do paletó e foi flagrado pelo diretor. Voltou para a casa sem assistir às aulas daquele dia, com a seguinte advertência: “Suspenso um dia por se apresentar despido na escola.” Outro foi parar na diretoria porque, em plena prova de Matemática, “deixou” cair o estojo no chão e o barulho tirou a concentração dos colegas. Em 1962, durante um jogo da Copa do Mundo no Chile, na segunda série, alguém acabou de ouvir a partida em casa, onde passou, suspenso, três dias, por entrar com rádio de pilha na classe – e era jogo decisivo: Brasil X Espanha. Fui excluído da aula de Religião: quando seu Benevenuto entrou na classe, me viu empurrar um colega.

Um foi suspenso, imagine!, por acender um barbantinho fedido num corredor. Cinco marmanjos, com medo da prova de Ciências, se mandaram. O diretor saiu em seu próprio carro e pegou a turma toda no posto do seo Garcia, no Mercadão. Recolheu a caderneta de cada um e mandou os pais irem buscá-las. Ai, se não fossem!

(Naquele tempo, para um aluno, seus pais e todos de casa, era a máxima vergonha ter um caso de advertência ou suspensão na família. Mancha que tempo algum apagaria. A sociedade tinha vergonha na cara.)

Dia desses, uma menina de 14 anos, advertida pela professora por não estudar, periga perder o ano. Reagiu, orgulhosa, até: “Meu pai é o maior traficante do bairro. Se você me reprovar, ele vai na sua casa e acaba com sua família!” Há tempos, estudantes usam drogas na sala de aula e o professor é obrigado a fingir que não vê. Entram com ‘ipode’, ‘inãopode’ e se sacodem pelos cantos, impunes. Quem manda é o aluno, com licença para passar de ano sem estudar nem saber bulhufas – mais um pouco, reivindicarão licença para matar e o governo é capaz de atendê-los.

Já invadem reitorias. Vivem de greves e arruaças, seguem o exemplo que vem cima: o festival de corrupção. Virá a furo das faculdades mais uma geração de incompetentes, típicos formandos em P-4: panfleto, palestra, palanque e passeata. Depois, pontes e prédios desabarão; doentes morrerão de dor de barriga; cardíaco será operado da orelha; bisturi ficará largado na barriga; a OAB expelirá cada vez mais do Exame de Ordem; os importados serão sempre melhores; professores continuarão despreparados; a Justiça, mais lenta; nossa língua deixa o esplendor, a caminho da sepultura. O ensino não é mais o campeão de audiência nem o professor, a próxima atração. A ordem é viver ‘on line’ com a futilidade.

Pregado no poste: “Reconheço: as notícias também nunca foram tão superficiais”

 

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