Da perna de pau

Combater pirataria é enxugar gelo.

As autoridades perderam, como perdem todos as disputas contra o crime organizado e a exploração da fé pública. O camelódromo da cidade, quando ainda se podia chamar isto aqui de cidade, ficava só em volta do glorioso Grupo Escolar Municipal “Corrêa de Mello”, na frente, ou atrás, do Mercadão.

Em muito menor grau, aqueles camelôs também eram criminosos: vendiam sem nota fiscal, sem garantia e sem imposto. Comerciavam ilusões: ervas para curar frieira, hemorróidas, careca, caspa, calo, gonorréia, diabetes, dor de cotovelo – até dor de cabelo. Agora, tempos modernos, oferecem a cura do câncer e da aids na cara dura. Povo sem boa escola acredita em tudo, até que o Lulla não sabe de nada e estatal é a solução.

Fora os que abriam u’a maleta e de lá saía uma serpente, sempre chamada Violeta, para atrair compradores de massa de metal para soldar, esferográfica “com pena de aço irídio, o mais duro do planeta”, descascador de batata, nabo e rabanete, ralador de queijo, moedor de carne, espremedor de laranja, cortador de unha, camisa do Mogiana, do Ipiranga ou do Rádium de Mococa.

Aproveitando o movimento rumo ao centro, pela Ernesto Kuhlman ou Álvares Machado, via Mercado do Sapato ou Restaurante Chiminazzo, alguém começava a gritar a Bíblia e a faturar caraminguás jogados numa baciinha de metal – hoje, têm rádios, tevês, jornais, ex-cinemas — com guichês e sacolinhas no lugar das baciinhas. Amém, pessoal?

O negócio ilícito da música já passa o das drogas no mundo do crime organizado, que vive atrás do dinheiro da “sociedade civil organizada”, pra ficar no jargão preferido de outro tipo de enganadores.

Olhe, que poderiam prestar um grande serviço à qualidade da arte brasileira, mas nem isso. Duvido que a maioria de CDs ali vendidos ou apreendidos seja da Nara, Maysa, Marisa, Elis, Elisete, Dalva, Ângela, Isaurinha, Clara, Gal, Bethânia, Leila, Layla, Nersão, Jair, Orlando Silva, Zé Ketty, Noite, Cauby (por que não?), Silvio Caldas, de Noel, Chico, Cartola, Aracy, Baden, Vinícius, Jobim (em plágios ou não), Caetano, Erasmão (sim!)…

Gosto não se discute, lamenta-se. Mas que limpeza na música brasileira faria um pacto como esse entre os criminosos! Toda aquela constelação por cinco merréis!

— Um aqui para o cavalheiro! Outro ali, para aquela senhora! Parabéns pelo bom gosto, minha jovem! Está na mão! O quê!? Disco de quem!? Não, meu caro! Para quem tem a mãe na zona nem no Jardim Itatinga o senhor vai encontrar! E é muito caro, viu? Tem de pagar imposto para sustentar político.

Pregado no poste: “Padre Busch, vamos plantar um ipê no Largo da Catedral?”

 

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