Das Dores da cidade

Com seu manto roxo e sete punhais cravados no peito, campineiros de fé exprimem no rosto a agonia de uma cidade que assiste ao padecimento de suas raízes. “Um espectro ronda o Cambuí”, diria Carlito Marx, o da misteriosa ameaça da derrubada dos ipês que ornam a Igreja de Nossa Senhora das Dores, a mesma que, com seu manto roxo e sete punhais cravados no peito, exprime no rosto a agonia de uma mãe que assiste ao padecimento de um filho.

Seu dia, justo hoje, relembra os sofrimentos pelos quais a cidade passou durante a vida: a paixão e a morte do Alecrim diante da sua matriz de Nossa Senhora da Conceição. Sofrimento começado muito antes, anos 30s, quando assassinaram todas as árvores que davam vida ao Largo do Rosário. A demolição do próprio templo. Continuou com o corte da Sibipiruna na Avenida Brasil; com a morte lenta e anunciada de paineiras da Orosimbo Maia e de outros jequitibás do Bosque, além do descaso que matou seo Rosa, o Jequitibá, na janela do Poder.

Para acabar com os boatos, padre Busch, o pároco, toma as dores da Nossa Senhora e avisa:

“Nunca pedi a retirada dos ipês. Sou padre, mas não sou fulano de tal. Peço nas missas que se alguém tem algo a ver com essa ameaça, não mexa nas árvores, porque arrancar árvores mexe com o povo. A praça é pública e de responsabilidade da Prefeitura. Ela tem um projeto urbanístico para aquele pedacinho da Maria Monteiro, apenas para reduzir o tráfego, que trepida e racha as paredes do templo. Já perdi a conta de quantas restaurações fizemos. O teto é de gesso, gesso não pode com água. Ele estampa uma das dores da Santa, a Apresentação de Jesus, por Simeão. As outras seis dores estão nos vitrais.”

A profecia de Simeão diz: “Jesus será um sinal de contradição e tu, Maria, terás a alma traspassada por uma espada”. É a primeira dor. As demais são: a fuga para o Egito; a perda do Menino Jesus no Templo; o encontro a caminho do Calvário; a morte na Cruz e Jesus morto nos braços de Maria.

Campinas ainda tem história.

Também para acabar com os boatos, a repórter Teresa Costa, terror dos medíocres, garante que existe uma liminar protegendo os ipês. (Mas que valor tem liminar em terra que absolve político?)

Hoje, quem prega no poste, na rua da igreja, é o próprio padre Busch:

Pregado no poste: “A inoperância dos irresponsáveis não justifica nossas omissões.

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