“Central de Campinas”

A ilustre senhora de Itanhanguã veio passear. Há tempo não saía de lá. Da outra vez, mandou-me histórias incríveis daquela terrinha, que viraram tema desta nossa conversa, mas o tempo comeu. Não acho aquela carta em escaninho algum. Lembro-me só de que quando ela ia me contar onde fica Itanhanguã, a linha caiu. Desta vez, ela não me escapa. Mandou o relato de uma viagem pela “Central de Campinas”, mas de ônibus, e conta, finalmente, onde fica sua querência. Primeiro, a viagem.

“Pensando bem, se conseguíssemos um longa, ‘Central de Campinas’, creio que teríamos chegado bem mais perto do dito ‘Oscar’. Iniciemos tomando o ônibus São Fernando – Santa Mônica, mais próprio para o transporte de gado do que de gente. Alguns usuários, nada corteses, sequer lêem as mensagens colocadas nos vidros das janelas, indicando lugares preferenciais, isto é, aos portadores de carteirinhas: idosos, deficientes etc.. São analfabetos ou fingem ser, ficando donos desses assentos. Marmanjos e marmanjas pulam a catraca para não pagar passagem; cobradores e motoristas não são loucos de impedir – temem represália. Duas garotas se apresentam: ‘Eu moro no Sanfer…” A outra devolve, na mesma língua: ‘E eu, no Dique Faive’.

O veículo passa por terrenos baldios, onde jovens futebolistas treinam um bom amistoso. Amistoso, mesmo. Não vemos brigas nesses jogos, nem por parte dos jogadores nem pelos torcedores.

Dentro do coletivo, dois homens discutem, cada um querendo ser mais instruído que o outro. Diz o primeiro: ‘Abra a janela, para que o ar se renove. Conselho de médicos.’, omitindo as palavrinhas mágicas: ‘Faça o favor.’ O segundo passageiro se irritou. (Há pessoas que se irritam facilmente.): ‘Os médicos não sabem nada; minha mulher morreu na mão deles, por erro deles.’. Aí, a coisa esquentou. Com palavras impublicáveis, cada um tenta provar sua tese. Um rapaz trata de sair de fininho, antes que o calor da conversa explodisse, o que soe acontecer nesses meios da sociedade…

Fugindo do desfecho dessa história, desembarco no centro. Um senhor vendia poesia de sua autoria por R$ 1. Até menos, caso a alguém interessasse. Sua poesia, sem métrica ou rima, pobre qual seu autor, causa pena, mas entrego-lhe a moeda, penalizada pelo esforço em adquirir alguma vantagem em sua literatura.

No cruzamento da Ferreira Penteado com Barão de Jaguara, numa casa de jogos eletrônicos, rapazes e homens feitos brincam nas máquinas – não se vêem mulheres aí. Seria a prova de que mulheres sabem aplicar melhor seus dinheiros?”

Pregado no poste: “Sabe onde fica Itanhanguã, dona Izalene?”

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