Caramba!

Foi só dona Globo passar no Fantástico, tempos atrás, que a carambola até mata quem sofre dos rins, para produtores de várias cidades do Interior paulista sofrerem um baita prejuízo. Eu me lembro, professores da Faculdade de Medicina da USP e da Nefrologia do seu Hospital das Clínicas tomaram todo cuidado: “Só faz mal para quem sofre dos rins!”. Mas não adianta. O povo amaldiçoou para sempre essa delícia dos pomares. E quando o povo quer ser ignorante, saia debaixo. Não vê quem eles elegem?

Imagine a desgraça espalhada por uma reportagem (bem-feita) para alertar e ensinar, mas chega distorcida ao espectador, sabe Deus, ‘porcás’ de que. Por isso, há gente pensando até hoje que a fazenda do anúncio do iogurte Chambourcy está à venda. Mas felizmente há povos inteligentes: os portugueses, por exemplo, não são bobos nem nada: sensibilizam-se com a propaganda do cigarro Marlboro e compram cavalos.

Enquanto isso, aqui, na fantástica Monte Alto, da menina Izildinha, só um produtor colheu 14 toneladas e não vendeu nem meia (muito menos botina…). Faz uns cinco anos, a notícia começou a se espalhar. E a má fama só cresceu, como uma carambola de neve. O coitado de um caramboleiro de Cândido Rodrigues gasta R$ 7,00 para produzir uma caixa, esperando vender por R$ 10,00 e mal consegue R$ 4,00.

Tudo porque a carambola tem uma toxina que os rins não conseguem filtrar; ela cai na corrente sanguínea e ataca os nervos.

Um milagre marca o sucesso de uma fruticultura superdiversificada nessa cidade de 45 mil habitantes e mais de 120 anos, a 16 quilômetros de Jaboticabal. O português Clementino de Castro, que criou a Crai (e com ela a Peixe e a Cica) para fazer doce das frutas, trouxe de Portugal o corpo da irmã, Izildinha, para ser sepultado na cidade. Estava intacto! E para o povo, ela é santa.

Monte Alto também se orgulha de ser sede dos museus de Paleontologia e Arqueologia e da primeira edição dos Jogos Abertos do Interior, que Baby Barione criou ali em 1936, para conquistar a filha do prefeito. Faz mais de vinte festas por ano, de fevereiro a dezembro. Uma, a da melancia, é comemorada na porta do cemitério, que se enche de caminhões no… Dia de Finados!

Por que tanta festa? “Agroindústria, agricultura familiar, safra o ano inteiro mais devoção religiosa dão nisso…”, dizem no lugar.

Pregado no poste: “É caro porque é caro ou para o pobre não usar?”

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