Cair da escada é uma arte

Cuidado ao descer ou subir a escada! E mais cuidado ao dizer que alguém caiu da escada. Dependendo do lugar da queda, a reputação da vítima fica marcada por toda a vida. Uma amiga que morava aí saiu a passear de carro com o namorado. Muda de marcha pra cá, muda de marcha pra lá, uma distração e… o carro bateu. E para contar em casa como se deu a mancha roxa? À mesa do café da manhã, família reunida, preferiu tomar a iniciativa antes que vissem sua canela. Melhor assim: e se fossem a testa, o nariz, os olhos? Como disfarçar? O acidente aconteceu na noite anterior, perto da meia-noite, hora de voltar da escola, pras bandas da Avenida Saudade. Falou que caiu da escada ao sair do colégio. Pressa para pegar o ônibus, sabe como é? Sei, sei.

Dois dias depois, a mãe estendia roupas no varal e parou para ver quem batia palmas. Era um policial com papéis na mão:

— Sua filha sofreu um acidente, o carro bateu e precisamos do testemunho dela, porque o motorista que for culpado terá de pagar o prejuízo do outro…

— Como acidente? Minha “fia” caiu da escada!

Por causa dessa bobagem, o pai, honrado bicheiro do bairro, queria fazê-la se casar na marra com o motorista barbeiro. Conseguiu. O que você acha?

Quando a redação deste nosso “Correio” ficava na rua da Conceição, as pessoas que chegavam eram recebidas por um ascensorista exemplo de cordialidade. O Florêncio. Nas noites de sexta-feira, havia bailes animadíssimos no salão de um esporte clube bem no centro, também conhecido, por motivos óbvios, como “Esporte Clube Varizes”. Um zeloso repórter esportivo esperou toda a jornada de um torneio de basquete acabar, para fechar a edição e ir ao “Varizes” dançar. Lá, em pleno folguedo, o salto da coroa parceira enganchou na barra da calça dele: o jornalista esparramou-se pelo chão e torceu o pé. Conhecedor profundo da esposa ciumenta, foi de táxi tirar o Florêncio da cama para “testemunhar” que ele havia caído da escada no jornal, porque o elevador estava com defeito. Santo Florêncio!

Ainda no século 18, havia um seminário em Campinas, com um código para receber visitas. Quando alguém chegava à procura de determinado padre, a ordem era dizer, compungido: “Ele caiu da escada! Para não ficar inativo, foi mandado a Roma, a fim de convalescer e aperfeiçoar os estudos…”. Cair da escada era a senha para esconder que o dito cujo fora flagrado em pedofilia e despachado para a matriz. Um deles, incorrigível pra chuchu, não resistiu quando a telefonista voltou da licença maternidade:

— Que inveja do seu bebê. Ele pode mamar aqui!

Apertou, vazou e ela gritou. Saiu indignada atrás do marido. Um dia eu conto como ele se salvou — o padre.

Pregado no poste: “No século 18, Campinas era tão avançada que tinha seminário com telefonista e tudo”

 

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