Brasilino 2001

O Brasilino ressuscitou. Viveu até pouco antes da “redentora”, personagem de um panfleto nacionalista. Brasilino acordava cedo, em lençóis e fronhas fabricados por tecelagem multinacional. Barbeava-se com Gillete, depois de ensaboar o rosto com creme Williams. Banhava-se com sabonete da Gessy-Lever e enxugava o corpo com toalhas de outra multinacional. Vestia terno de Nycron; calçava meias inglesas e sapatos italianos; punha gravata e camisa de seda japonesa e passava perfume francês. Seu café da manhã tinha cornflakes da Kellog’s, bacon da Wilson, leite da Nestlé, maçã argentina, geléia alemã, manteiga americana da Anderson Clayton. Olhava as embalagens de tudo o que consumia e via, orgulhoso, o nome da fábrica acompanhado de um infalível “do Brasil”.
Assim, ao partir para o trabalho, abastecia seu Fusca, feito na Volkswagen do Brasil, com gasolina da Esso Brasileira de Petróleo. Chegava ao escritório a bordo de um elevador Schindler; no pulso, reluzia o Omega suíço legítimo; tirava do bolso a caneta Parker 61; falava ao telefone fabricado pela Standard Electric, usando linha da Companhia Telefônica Brasileira. A luz que iluminava sua sala vinha da São Paulo Light. Para encurtar a história, com sorriso maroto, Brasilino mostrava para a secretária a novidade do mercado, a camisinha Jontex, da Johnson & Johnson, naturalmente.
Na rede mundial, circula nova versão da letra do Hino Nacional. Dizem que é de um publicitário. Pra mim, é o Brasilino de volta:
“Num posto da Ipiranga, às margens plácidas, de um Volvo heróico Brahma retumbante. Skol da liberdade em Rider fúlgido brilhou no Shell da Pátria nesse instante. Se o Knorr dessa igualdade conseguimos conquistar com braço Ford, em teu Seiko, oh liberdade, desafia o nosso peito à Microsoft. Oh Parmalat, Mastercard, Sharp, Sharp, Amil um sonho intenso, um rádio Philips, de amor e Lufthansa a terra desce. Intel formoso céu risonho Olympicus, a imagem do Bradesco resplandece. Gillete pela própria natureza, és belo Escort impávido colosso, e o teu futuro espelha essa Grendene, Cerpa gelada! Entre outras mil é Suvinil, Compaq amada. Do Philco deste Sollo és mãe Doril, Coca-Cola, Bombril!”
Pregado no poste: “Mais uma estrela na bandeira americana”

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