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Nenhum gagá, mas todos “GG”, pela dimensão de seus conhecimentos – experiência de vida. Chegavam devagar ao restaurante, cada um ao seu modo, para celebrar os sessenta anos de formatura no curso de direito. Uma hora depois de reunidos, perceberam que ninguém mais viria. Ainda eram nove da turma de 40, cinco homens e quatro mulheres. Falavam um português corretíssimo e ‘castiço’, como se dizia no tempo deles. Sabem Latim mais do que qualquer padre de hoje. Uma delas mandou recado para justificar a ausência: olhava todos os vestidos em cima da cama e nenhum servia. “Mande-a vir sem roupa”, alguém sugeriu.

Estavam alegres, cabeças brancas, tingidas ou carecas. De bengala ou andador, mas altivos. “Aqui, ninguém pergunta se alguém morreu, mas se ainda está vivo!”. Nascidos nos anos vintes, sobreviveram e atuaram sob meia dúzia de constituições, quatro revoluções, uma intentona, duas ditaduras e todas as copas do mundo. Um orgulho: naquele ano de 1949, todos os formandos de Direito no Brasil receberam seus diplomas a 5 de novembro, para comemorar o centenário de Ruy Barbosa, verdadeiro “deus” de cada um.

Só um usava suspensório. Não abria a boca nem ria. Alguém implicou com tamanho silêncio, alguém explicou: “Para não gastar o que resta de voz, porque foi eleito o orador deste encontro.”

Começou o desfile de lembranças das andanças de cada um pelo mundo. O mais lépido, magrinho e baixinho, foi criticado porque esteve na China e não visitou o Exército de Terracota. A indignação partiu da mais chique ali: ela contou porque esteve ausente de todos os encontros e não pode sentir a turma minguar a cada dez anos: “Eu me formei, casei-me com um brasileiro em Paris e só voltei no ano passado. Mas deixem-me contar para vocês. Nos três primeiros anos, foi um horror, porque tive de cozinhar. Um dia, passeando com meu marido, vi uma placa na fachada do açougue onde eu comprava carne; estava escrito que, ali, se vendia carne de cavalo. Diante de meu espanto, ele falou: ‘E carne de quê você pensa que faz para nós todos os dias?’”.

Três piadas:

— O Paulo Colombo não vem?

— Quem!? Cristóvão Colombo?

— Não! Esse é da turma do Américo Vespúcio!

O cardápio sugeria “peixe do mercado”.

— Que peixe é esse?

— Namorado, doutor.

— Troca. Eu só como a namorada.

Um falou da saudade dos bisnetos. O outro lamentou:

— Minhas três netas são tão feias, que os homens não querem nada com elas. Desisti: jamais serei bisavô; então, serei bissexual!

E apressou: “Garçom, corre com isso! Hoje ainda tenho de dar duas aulas. Ou vocês pensam que é fácil sustentar três netas vagabundas?

Pregado no poste: “Lula escondeu Dilma do apagão no escurinho do cinema?”

 

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