Afinal, guapa rapaziada…

Essa expressão, consagrada pelo comediante Theobaldo numa propaganda do guaraná Antarctica, oficializou no Brasil o que era “brega” e o que era “chic”. Até então, idos de 1970, havia vários nomes para qualificar o “brega”: jacu, varzeano, estradeiro, botinudo, caipira, pé vermelho… O humorista e publicitário Sérgio Arapuã criou outra denominação, para marcar a campanha da Antarctica: “boko moko”. E o Theobaldo tomou conta das cidades: até ganhou marchinha, no Carnaval de 1971. Era o anti-herói. Enquanto os bebedores de refrigerantes americanos glorificavam beldades, o nosso “Arapa” saiu pelo avesso e deu certo. Ditou moda e mudou hábitos.

Tudo o que ferisse padrões de estética, comportamento e linguagem virou “boko moko”: calça de boca estreita, por exemplo. A moda, para fugir da gozação, tinha de ser calça com boca de sino. Você teve de usar, né? No começo, foi difícil acostumar. Uma barra esbarrava na outra. Um amigo, voltando para casa de madrugada, estranhou aquele barulho. Apertava o passo, o ruído aumentava. Diminuía a marcha, o barulho, também. Custou para ele descobrir que não estava sendo perseguido: eram as barras das calças farfalhando.

Aí, começou a coleção de “boko moko”: pingüim em cima da geladeira; cortina de tiras de plástico para separar a cozinha da sala; sapato de duas cores; óculos com aro de tartaruga; anão de jardim; saquinho de areia em forma de sapo para segurar a porta aberta; unha grande e anel no dedo mindinho; colcha de retalhos para forrar o assento do carro; cuecas samba-canção; sapato de bico fino; estojo de óculos pendurado na cinta; beber cuba-libre e gim-tônica; calça com vinco (foi o fim do nycron); camisa Volta ao Mundo; usar meias brancas, chapéu e terno de linho branco; chaveiro com corrente; anáguas (era proibido usar combinação); a música de Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, Dalva de Oliveira, Roberto Luna, Chico Petrônio, Valdick Soriano… — essa arte brasileira foi banida das paradas de sucesso. Crueldade.

De repente, tudo o que fazia parte do dia a dia virou “boko moko”, brega, cafona. O jovem podia ser elegante, corajoso, bonito, porém jamais ser chamado de “guapo”. Passar brilhantina nos cabelos? Nunca. Usar topete? Só o Elvis Presley. Ai da garota que passasse laquê, para conservar o penteado. Usar bobbies, fazer permanente? A moda era cabelo liso, se não… “boko moko”! Casaco de pele de onça, então… Nada ecológico. É que a pele de onça virou marca registrada dos trajes das prostitutas. Havia até uma piada: sabe o que a onça falou para o onço? “Me compra um casaco de pele de p…?”.

Outro dia, conversando com a molecada aqui do prédio, vi que com a padronização das roupas, dos hábitos e do linguajar (cada vez mais pobre), resta muito pouco de “boko moko” por aí. A lista é curta: meia arrastão quadriculada; meia de náilon com apliques; calça de cintura alta (que eles chamam de Saint Tropeito); saia balonê; farol cor-de-rosa; cordão de ouro no pescoço (“nem bicheiro usa mais”, disse uma garota). Até o “moderníssimo” celular já tem sua versão brega: é um modelo de madeira.

Os meninos dizem que as sandálias de borracha continuam cafonas. O fabricante faz uma força danada para modernizar essas sandálias, anunciando que ela é usada só por gente famosa. Mas nessa publicidade falta, sem dúvida, o talento do grande Arapuã. Com o “boko moko”, ele conseguiu o milagre de fazer, na época, o guaraná bater a Coca-Cola.

17/01/1998

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