O caipira e o português

O português é burro? O caipira é atrasado ?

Nesta república de governantes ora corruptos, ora incompetentes e muitas vezes egoístas, nunca vi a gente da lusitana terra fazer burrice nem a gente do interior cometer as asneiras que se cometem, por exemplo, em Brasília, a Capital. Com perdão dos burros e dos asnos. Mas deixe essa gentinha de última categoria para lá. Qualquer bicho é de mais valia do que eles.

Sertão de São Paulo, dez anos atrás. Lá para as bandas de Dracena.

Perdida no cafezal, uma capelinha verde-rosa marca a religiosidade do lugar. Verde-rosa porque, soube depois, o pároco era carioca, mangueirense de pedir a benção a Cartola, dona Zica e dona Neuma. Mas nunca ousou na avenida, embora guardasse na sacristia, com amor,  uma flâmula da “Estação Primeira”. Lembrança da Gigi, a exuberante porta-bandeira dos tempos de seminarista.

Numa tarde de domingo, estava marcada a primeira comunhão dos jovens daquela paróquia. Festa simples, de gente simples, mas gente — alguns até descalços, para receber pela primeira vez a hóstia consagrada. Iluminada pelos últimos raios do poente, uma cena inacreditável: o padre confessava os garotos separado deles por um pé de café, que servia de cortina de confessionário. De tão pequena, a capela não comportava um lugar apropriado. Mas quer um lugar mais adequado para um caipira se arrepender do que aos pés de um cafeeiro ?

Dali, foram para a missa e para o grande momento.

Terminada a cerimônia, sentamos nos degraus da igrejinha: eles, o padre, alguns pais, o fotógrafo Flávio Canalonga e eu. Noite quente, refrescada por tubaína gelada e bolinhos de chuva. Conversa vai, conversa vem, tentei que abrissem o coração. Afinal, o que vocês pediram a Deus nesta primeira comunhão?

“Eu pedi para ser balconista do Mappin”, disse de sopetão Rosemeire Benites, loirinha, 15 anos, a “cinderela” do lugar, musa dos bóias-frias, a estrela de dez entre dez na colheita do café.

“Eu quero a fazenda do iogurte Chambourcy”, confessou Adilson, 14 anos, cara de 30, marcada e envelhecida pelo sol.

“Se Deus quiser, vou ser ator, como o Nuno Leal Maia, aquele que quer transar com a Versa Fischer na novela”. Tempo de Mandala e a televisão fazia a cabeça deles, mas as mensagens chegavam de outra forma. Enquanto a fábrica pensa que vende iogurte no anúncio, os garotos estão de olhos cobiçosos na paisagem.

Certo eles. O pai de outro menino foi mais longe. “Se fosse minha a primeira comunhão, eu pediria a Deus os cavalos do homem do Marlboro. Cada bitelão, eita !” Lembrei na hora da piada que contam no Brasil: “Em Portugal, cada vez que passa o anúncio do Marlboro, aumenta a venda de cavalos…”

Afinal, quem é burro ? O português, que prefere um cavalo de raça em vez de um maço de cigarros, ou o trouxa, que virou fumante, enganado pela propaganda? Quem é atrasado? O caipira, que sabe fazer uma bela coalhada e dispensa o iogurte, em troca de um bom roçado, ou o consumista, cuja mente vale menos do que um bifinho?

Quando foram embora, perguntei ao padre: “Que pecado essa gente confessa? O que é pecado para eles?” Disse o pároco: “Bater nos animais, responder para os mais velhos, derrubar uma árvore à toa… Nada além disso. Mas se pulam a cerca, não confessam. Têm medo e vergonha.” Insisti: “Ninguém mente, ninguém rouba ?” Ele lamentou: “Só quando vão embora para a cidade…”

 

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