A mãe da Nívea

Ter uma xará como a dona Moacir Dóro é uma honra. E um orgulho para a filha Maria Nívea Pinto, da cidade de Lavínia, autora de “Retalhos da Memória”, editora Komedi. Lavínia fica longe, lá pra perto de Araçatuba. Quer dizer, para eles Campinas também fica longe, cá pra perto das bandas de Betel. Mas ouça um trechinho da memória que Nívea tem da dona Moacir, uma guerreira forte e bela como dona Eulália, mãe da Zélia Gattai, no corpo e alma da Débora Duarte, de quem jamais me esqueço:

“Minha mãe era mais pé no chão que meu pai. Foi ela quem segurou a barra quando ele ficou doente e precisou tratar-se em São Paulo. Ou quando ficou desempregado. Para auxiliar na renda, fornecia pensão para professoras primárias, vindas de cidades distantes, costurava e eventualmente cozinhava para as pessoas em melhor situação do que a nossa. Mulher trabalhadeira, de pouca fala, de mãos afeitas ao trabalho e não a carinho. Era incapaz de ficar parada. Só conseguia assistir televisão fazendo algo. Nunca fechava a porta da frente da casa, qualquer pessoa entrava sem bater…

Foi uma das primeiras professoras da cidade (Sabia, Nívea! Tinha de ser professora!). Além de lecionar e cuidar dos filhos e da casa, ainda achava tempo para fazer crochê e tricô. Ensinou essas atividades para muita gente, sem nada cobrar. Fazia muita caridade. Tinha um grande número de afilhados (Já me sinto um deles…)

Lembro-me das fases difíceis, quando trabalhava muito, sem reclamar. Muitas das roupas que eu vestia eram dadas por pessoas para quem ela costurava. Isso me humilhava muito, mas o pior era ter de usar roupas íntimas, feitas de faixas eleitorais, que ela clareava apagando as letras…”

Gente, depois dessa, só lendo. O livro é uma deliciosa viagem por essa cidadezinha do interior paulista, seus personagens, costumes, crendices, ditados e frases, móveis e utensílios de antanho. Nívea se lembra até dos gostos e cheiros dessa terra de gente brilhante como dona Moacir. Vá a Lavínia pelas lembranças da Nívea. Não sabia, ela estudou e lecionou no “Culto à Ciência” e pesquisou a vida de um de seus ex-alunos mais brilhantes, o Santos Dumont.

Pregado no poste: “Brasil, povo bom, governado por gente ruim.”

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