Ciao, amore!

Gledys ensaiava um trecho da ópera “Carmen”, na sala de Canto Orfeônico do “Culto à Ciência”. Lá fora, a molecada, fascinada com a força da nossa contralto, fazia segunda voz com um ‘jingle’ da Esso, sucesso na época, em cima dos acordes de Bizet:

“Só Esso dá ao seu carro o máximo / Só Esso dá / Ao seu carro o máximo / Veja o que Esso faaaaaaz!”.

Nesse tempo, essa mulher enérgica e brava, mas que sabia mudar instantaneamente para um sorriso doce, era nossa inspetora de alunos. Cuidava da gente como uma leoa. Se algum aluno vinha de colarinho aberto, desafiava: “O que é? Vai dar de mamar? Feche esse botão, já!” Paletó desabotoado dava diretoria. Quando a fatiota foi abolida, ela exigia o uniforme impecável: calça cinza com vinco a máquina, camisa branca de ofuscar Nicola Cego, sapato de amarrar e meias pretas. “Quem estiver com meias de cores diferentes, mando para a diretoria!” Foi aí que o Mané, amigo do Nistinha, se deu mal, quando ela o encarou: “A senhora disse que não queria meias de cores diferentes e eu estou sem meias…” Três dias.

Todos os alunos de lá têm uma lembrança dela. Marcante!

Um segredo revelado pelo nosso diretor, o doutor Telêmaco, numa festa de 30 anos de formatura: “Enquanto vocês estavam em aula, ela percorria as ruas próximas do colégio, para protegê-los do assédio de traficantes – já naquele tempo! – e ai de quem ela desconfiasse!”. Acho que foi o “muito obrigado” mais sincero que um diretor já ouviu na vida. Ela não ia às nossas festas: “Se pego um de vocês fumando lá, ainda faço o maior escarcéu!”.

Da classe se ouviam seus gritos com os indesejáveis na rua. Enfrentava, mesmo. E a Mariinha lamentava: “Ouçam a bela voz da Gledys. Em vez de ficar por ai berrando, deveria cantar!” Um dia, ela seguiu os conselhos da mestra e acabou por sucedê-la na cadeira de Canto do colégio. (Talvez Judy Garland não saiba, mas já está ao lado de quem a adorava e imitava melhor do que a original…).

Nossa turma já não estava mais lá; não deu tempo de sermos seus alunos. Mas a quantidade de mensagens e telefonemas de colegas e professores daquele tempo, chorando sua decisão de cantar e encantar o céu, mostra como ela é e será querida.

Deus está em boa companhia; mas nós, mais sozinhos.

Pregado no poste: “Tão longe, de mim distante…”

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