A fonte

A justiça farda, mas não talha. Quando um jornalista tem fontes de informação seguras, a verdade pode demorar anos, mas aparece. Percorrendo a memória, depois que o tema do novo aeroporto de São Paulo voltou ao debate, comecei a enumerar as voltas que o mundo deu para confirmar muitas notícias que dei e fui “categoricamente” desmentido.

Uma vez, invocaram até a Lei de Segurança Nacional para dizer que eu espalhava intranqüilidade pelo seio da Nação, ao noticiar, em 1973, que o Pelé não jogaria a Copa de 74. Cáspite! Se foi a Rose, então mulher dele, que me contou isso numa madrugada em Viracopos, quando esperávamos o Santos chegar de (mais) uma excursão à Europa… Claro eu não faria essa pergunta ao Pelé, cercado de jornalistas. Até o Papa me desmentiu, mas ninguém foi atrás da Rose para saber.

Não me esqueço: 1º de maio de 1998. Noticiei que o Brasil exportaria naquele ano 500 milhões de litros de álcool para a Califórnia. Embaixada yankee, congressistas, multis do petróleo, até o então vice-presidente Al Gore (esse cara não me engana), voz da porta dos produtores de grãos dos EUA, mandaram carta para o Estadão desmentindo: “Absurdo! Os EUA não compram álcool no Exterior!” De fato, eu errei: a exportação chegou a 600 milhões de litros e hoje bate em dois bilhões. É que os gringos não podiam dizer que o álcool do Brasil já passava pela Jamaica, para entrar disfarçado de etanol caribenho e não pagar impostos.

Disse que a safra de café de 1974 teria uma quebra de 13,9%. Meu estimadíssimo Júlio de Mesquita Neto foi bombardeado por amigos fazendeiros, que não tinham interesse na divulgação da quebra. No fim da colheita, não deu outra: 13,9%. “Castro, você tem bola de cristal?”, ele perguntou. Eu disse que em vez de percorrer gabinetes da Secretaria da Agricultura e das associações de produtores, conversara com mais de cem administradores de fazendas de café do Estado, alguns in loco, muitos por telefone. Eles conhecem a produção mais do que o dono.

Sei que até hoje o magnífico ex-reitor Benedito José Barreto Fonseca, da nossa Puccamp, quer saber quem me contou, antes do anúncio do Vaticano, que a Universidade Católica de Campinas se tornaria Pontifícia. Doutor Barreto, mesmo, soube pelo Estadão. Mestre, repito o que disse ao senhor à época: “Juro que não foi o Papa.”.

Que pena! Acabou o espaço. Há muitas histórias, mas fica uma dica para quem está entrando no comício agora: não tenho mérito algum por esses furos; todos se devem à confiança nas fontes. Repórter tem de confiar na fonte mais do que na esposa.

Que aquela santa que mora aqui em casa não leia esta crônica.”.

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