A cobra do Tino

Dormi com a televisão ligada e ao acordar pensei que já existissem prédios de apartamentos no lixão. O zelador mostrava para uma repórter da EPTV uma ninhada de três urubuzinhos e sua orgulhosa “urubua” instaladas em cima do elevador! Todos três nasceram no sobe-desce da vida. Não, não era sonho, afinal o zelador que dava entrevista era o zelador do meu prédio! Acordei de vez: “Porca pipa, levei um furo dentro de casa!” Mas ali é lugar de dona “urubua” fazer ninho? “Ela não faz no lixão, porque lá também voa gavião e ele come os filhotes”, ensinou seu Jerônimo, o zelador, para a jornalista.

Outra lição desse sábio nascido, criado e vivido na roça até ser expulso pelos prédios da cidade grande. Para espantar pombas, não precisa matar as coitadinhas. É só passar uma mãozinha de cera de chão por mês, onde elas costumam ficar. “Ou jogar sagu cru perto delas. Elas comem os grãos e, quando toamam água, o inchaço das bolinhas asfixia esses ratos de asas”, emendou o faxineiro, indignado com a paciência franciscana do seo Jerônimo.

Outro dia, num desses programas de matinais de rádio, um homem ligou para o locutor e contou que havia uma capivara a nadar no córrego que passa na frente da Rodoviária. O locutor, candidato a vereador louco para mostrar serviço, chamou os bombeiros. O soldado acabou com as pretensões eleitoreiras do ignorante pilantra, que o criticava, no ar, por não mexer uma palha para resgatar a capivara: “O córrego é o lugar dela para viver; ou você gostaria que eu fosse tirar você da sua casa!?”

Mês passado se deu fato semelhante. Leontino Balbo Júnior é cientista. Maior conhecedor de cana do mundo, teria nascido um pé de cana não tivesse nascido gente, como escreveu a repórter Marília César na Gazeta Mercantil. Sua usina, um oásis chamado São Francisco, “abriga um canavial com jeitão de floresta”, na definição da repórter Maria Fernanda Ribeiro, hoje contratada exclusiva do nosso “Correio Popular”. Lá existem matas com todas as espécies nativas brasileiras e bichos, como a cobra de vidro, que todo mundo científico pensava extintos. Tem até cana…

Tino também dormiu com a televisão ligada e acordou com a Polícia Florestal capturando uma sucuri de seis metros. Já pulou do sofá gritando:

— É a minha cobra! Esses caras pegaram a minha cobra!

Correu para a faculdade de Veterinária de Jaboticabal a fim de salvar a bichona.

— Essa cobra é minha! Eu cuido dela desde menina! Dá-me minha cobra!

(Ele fala “dá-me”, sim, no mais puro Português).

— Ela estava na beira da estrada, perto da mata, dr. Leontino…

— Onde você queria que ela estivesse? Na sua cama? Hein? Hein?

Pregado no poste: “Em certos templos, nem Cristo é de graça!”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *