A cicatriz da atriz

No mesmo dia em que me caiu no colo um exemplar do ano passado do Jornal da Tarde, um amigo me mandou uma espetacular coleção de fotos das Campinas de antanho, doada pela família dele, os Trinca, ao Centro de Memória da Unicamp. Entre as imagens, uma da nossa estilista-mor, madame Mariazinha Boccaletti, vestindo exatamente nossa Miss Campinas de 1958, a Madalena Fagotti. Que ganhou o concurso de Miss São Paulo daquele ano – acho que foi a primeira campineira a chegar lá. Depois dela, a Carminha Ramasco, um ano antes da Vera Fischer (cá pra nós, a Carminha ainda é muito mais bonita do que a Vera).

O texto diz de dona Mariazinha: “Vestiu nove entre as dez mais elegantes de Campinas: noivas, debutantes, atrizes, misses e socialites passaram pela arte dessa campineira que começou a costurar aos doze anos.” Ela viveu e encantou Campinas de 1913 a 1992.

Naqueles tempos, concurso de miss mexia com o País inteiro. As “mizes”, como se pronunciava então, eram símbolo da vaidade e do bairrismo de suas torcidas, que lotavam o ginásio do Marcanãzinho, para a grande final entre os estados. A miss São Paulo era paulista, a Bahia era baiana, a Rio Grande do Sul, gaúcha. Tinha de ser genuína. Depois, virou mais negócio do que um ingênuo concurso de beleza; as feministas falavam que era um desfile de carne humana e tudo acabou. Hoje, o ‘charme’ está nos desfiles de modelos e ninguém chama aquilo de desfile de carne humana, mas elas dizem que levam uma vida desumana.

E naquele Jornal da Tarde, uma entrevista com a cantora e atriz Carmen Marinho, 62 anos, há 18 afastada da televisão. Escreve um livro sobre sua vida e se dedica aos três filhos: Renato, 37 anos (Mister Los Angeles, em 94); Gerorgia, de 36 (Miss Brasil Beleza Internacional, em 1983), e Gisela, de 26 anos. A reportagem termina na história que mostra o que aconteceu quando as vidas da Carmen e da Madalena se cruzaram: “Aos 20 anos, a cantora e atriz foi Miss Paulistana e, ‘na teoria’, Miss São Paulo. ‘Ganhei na contagem de votos, mas um dos jurados disse que eu não participaria do concurso de Miss Brasil com duas cicatrizes na perna. Então, dei o maiô dourado para Madalena Fagotti.”

Incrível. A Marta Rocha perdeu o título de Miss Universo, em 1954, por causa de duas polegadas nos quadris. Nossa Madalena Fagotti ganhou o de Miss São Paulo, quatro anos depois, por causa de duas cicatrizes na perna da rival.

Pregado no poste: “Sr. político, não suje este poste com seu nome”

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