Querida Maria Luíza

Seu avô Luís Carlos e eu tínhamos uma penca de amigos que, hoje, você pode considerar seus avós, também. Para nós, você e cada criança que chega são a luz de esperança num lugar que anda meio apagado. Quando nós nem sonhávamos em ter uma neta, vivíamos numa cidade ingênua, de alma e ruas mais limpas; céu aberto; nuvens brancas; brisa leve; água pura; lua cheia de carinho e sombra de árvores generosas, que protegiam e enfeitavam nossos caminhos sob um sol incomparável. Campinas era um sonho para quem chegava – hoje, o sonho da cidade é seu passado.

Esse seu avô vai contar que tomava sorvete no Capelli e ia à sessão “gazetinha” do Cine Carlos Gomes, nas manhãs de domingo. Não perdia a missa das nove na igreja do Carmo nem os jogos do Guarani, primeiro no “Pastinho”, depois no Brinco. Que foi centroavante nos times do Ateneu, do Regatas, de futebol de salão e até da várzea. Vai contar que namorou no escurinho do cinema, na roda gigante dos parques de diversão e na arquibancada dos circos que se abriam atrás da fábrica de chapéus do Cury. Tomou banho de cachoeira no Rio Atibaia e de bacia, quando as mães das meninas que ele paquerava não queriam saber de serenata… Tocou muito violão para sua avó – até decorou um caderno, que ela guarda até hoje, com todas as músicas da Jovem Guarda. (Um segredo para ficar entre nós: na idade do seu pai, ele era mais Elis do que Roberto, mas o amor faz milagres.).

Ele vai ensinar a você a maior lição de vida. A que diz que amigo é para vida toda, não importa se foi carregador de caixas do Mercadão, entregador de farmácia, enteado de dono de botequim, ladrão de galinha, mendigo, motorista de táxi, sapateiro remendão, milionário, professor, engraxate, bailarino, pinguço, morador de mansão, cortiço ou favela, preto, branco, baiano, japonês, alemão, judeu, corintiano ou ponte-pretano. Você vai descobrir que seu avô tem um amigo de cada tipo humano que Deus pôs neste mundo em que, agora, Ele está colocando você. Maria Luíza, aprenda com ele. Eu aprendi muito e sou feliz. Um beijo e seja bem-vinda.

Pregado no poste: “Político: missão, negócio ou diagnóstico?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *