Pontos de desencontro

Não adianta marcar encontro à sombra de uma árvore no Castelo. Você vai morrer assado. Seo Pagano acabou com elas. Passei por lá na manhã de sábado e, ao me lembrar do prefeito da nossa cidade, lembrei-me, também, da nossa Ucha Mendonça de Barros. Com sua licença, amiga, os fabricantes de motoserra devem “a-d-o-r-a-r” seo Pagano. Como aquilo está feio!

Também não adianta marcar encontro no Largo da Catedral, à sombra do alecrim. Nem tive coragem de passar por ali. Eu quero ver é seo Pagano ter coragem de plantar outro alecrim na nossa praça maior.

Toda cidade tem seu padre e seu prefeito. Quando se juntam dois que não gostam de árvores, o risco de a cidade virar deserto é enorme. Prefeito se extirpa com o voto, mas o padre, nem se queixando ao bispo.

O jeito é procurar outros pontos de encontro. “Seoroberto”, como dizia minha avó, e eu marcamos de nos encontrar “mais tarde” com aquela santa que mora aqui em casa, num shopping center. Num café, claro. “Gozado, campineiros não se encontram mais no centro da cidade”, ele observou.

E você? Há quanto tempo não vai ao centro?  Lembra de quando todo mundo se reunia no fim da tarde na lanchonete das Lojas Americanas, ali na Treze de Maio? Tempo em que ainda havia mesinhas. É que todos os bondes passavam pela porta das escolas e quase todos, na frente daquela loja, um ponto de referência na cidade. Ela trouxe a Coca-Cola, o cachorro-quente, o hambúrguer, o sorvete da Kibon, o marshmellow e a banana split para Campinas. Foi o berço do fast food e das lanchonetes de hoje. Nada mais natural que fosse o ponto de encontro dos jovens de antanho. Já nessa época, ali se vendia uma garrafa de “Coca” por segundo. “Chegava do Ateneu às quatro meia, tomava um banho e partia que nem uma bala para o a loja, a tempo de ver as meninas que iam pra lá”. Bons tempos, né Betão?

Aos poucos, os pontos se foram expandindo. A Donney e a Balalaika, o Sanducha, embaixo do hotel Terminus, na Francisco Glicério, e, quase em frente, a “Prainha”, outro ponto de bondes, na porta da Firenzi. Os advogados, antes de ir para o Palácio da Justiça, tomavam um cafezinho no Caruso. Uma causa ganha podia ser comemorada com chope no Giovanetti, jantar no Barão e até uma noitada na boate El Cairo, sob as vistas dos boêmios do Ponto Chic, ali, sob a batuta do maestro. Eventos especiais levavam todos para o Armorial, mas aí já eram outros 500 (dólares).

Tentar marcar com alguém num desses lugares, outrora civilizados, é um perigo. É chegar e poder encontrar o amigo morto, assaltado, ferido. Não há mais onde se encontrar. Cada vez mais, os campineiros se vêem de quando em vez nos casamentos de amigos ou parentes e nos velórios – assim mesmo, já me alertaram que velar os mortos na Saudade durante a noite é um jeito certo de enfrentar bandidos. Campineiros têm de trocar a liberdade das ruas pela segurança (já incerta) dos edifícios. A solução é morar atrás de grades, para que as marginais vivam à solta.

É provável que muitos campineiros nem se lembrem mais ou nem saibam onde ficam a estátua do Carlos Gomes, o Largo da Catedral, o Castelo, o Largo do Pará, o Largo São Benedito, o monumento às andorinhas, a Praça Bento Quirino, o Mercadão, a Praça Luís de Camões. Esses logradouros estão todos lá, a cidade é que foi embora. “Gozado, os campineiros não se encontram mais no centro da cidade…”.

Pregado no poste: “Que cidade, Betão?”

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